A Opep não se submete às superpotências
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, deu novo vigor à Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep) e converteu-se em um herói em boa parte do mundo em desenvolvimento, onde foi apreciada sua valentia para enfrentar a superpotência norte-americana. Em resposta a isso, funcionários norte-americanos estão repetindo muitos erros que, no passado, turvaram suas relações com a América Latina. Suas torpes advertências dirigidas a Chávez para que não visitasse o líder iraquiano Sadam Husein e o líbio Muamar al Gadafi antes de sua viagem, apenas serviram para garantir que realizaria tais visitas.
No primeiro round do enfrentamento entre a Opep e os Estados Unidos houve uma clara vitória da primeira, graças, em parte, à Venezuela, um ator-chave na organização e fundadora desse cartel de produtores, há 40 anos. Para começar, Washington tem uma pouco sólida base moral para exigir preços mais baixos do petróleo: é o país que usa duas vezes mais energia por unidade do PNB do que o Japão e a Europa, ao mesmo tempo em que gera muito mais poluição ambiental.
Por outro lado, em contraste com a apresentação do cartel que é feita por parte dos políticos e dos meios de comunicação, mostrado como o vilão na questão do aumento do preço do petróleo, a realidade é que, com o barril custando por volta dos US$ 30,00, a Opep obtém menos em dólares reais do que conseguia na década de 70. Poucos políticos preocupam-se em recordar aos eleitores norte-americanos e europeus que a parte do leão dos preços do petróleo ao consumidor está constituída por impostos e pelo lucro das refinarias. Menos de 40% do preço do óleo representa seu custo. Foram as refinarias que rodaram a roleta com suas existências que provocaram as baixas reservas de petróleo e levaram à alta de preços.
Os EUA são especialmente vulneráveis diante de um aumento do preço do petróleo. Interesses especiais fizeram com que o Congresso evitasse aprovar toda a legislação para melhorar o auto-abastecimento e a eficiência no setor petrolífero, bem como bloquearam a ratificação dos Acordos de Kyoto sobre a redução dos poluentes que provocam alterações climáticas. Os responsáveis pela elaboração de políticas e os meios de comunicação dos EUA agravaram a situação ao apresentar o presidente Chávez como um demônio, o que lhe assegurou um renovado e total apoio popular nas recentes eleições venezuelanas, além de dar novo brilho à sua imagem na maioria dos países em desenvolvimento.
Os fundadores venezuelanos da Opep, o ex-presidente Rómulo Betancourt e seu ministro de Energia, Juan Pablo Pérez Alfonso, sempre destacaram que o petróleo é um recurso destinado a esgotar-se no próximo século, e essa foi uma das razões para que promovesse a criação do cartel petrolífero. Eles também acreditavam nas fontes renováveis de energia, como a solar, eólica e outras, bem como na preservação dos recursos naturais e do meio ambiente, enquanto os lobbies norte-americanos do petróleo, carvão e do automóvel ainda estão tentando refrear essas orientações. Em lugar disso, deveriam começar a investir mais num futuro mais limpo e mais verde.
O segundo round do confronto, também é provável que vença a Opep. Recentemente, Chávez inaugurou em Caracas o Primeiro Seminário Internacional sobre Novas Tendências Mundiais e o Futuro do Petróleo e da Energia, que apoiou os preços da Opep. Os especialistas presentes ao encontro também deram à Opep conselhos estratégicos e de longo alcance: 1) Estabelecer um fundo para novas tecnologias energéticas para manter-se em dia sobre elas e sobre as tendências atuais dos investimentos das grandes companhias petrolíferas, como Shell e BP, que passam do petróleo a fontes de energia renováveis; 2) Mudar o enfoque e ocupar-se de recursos naturais mais limpos, como o gás, o que aumentaria seu ingresso e daria oportunidades para aproveitar os benefícios estabelecidos pelos Acordos de Kyoto para aqueles que reduzem a poluição ambiental; 3) Estabelecer um sistema eletrônico de troca para o petróleo da Opep. Isto permitiria aos seus membros menos desenvolvidos (Nigéria, Líbia, Argélia e Indonésia) evitar o cassino global de algo em torno de US$ 1,5 trilhão diários de transações monetárias (a maior parte delas especulativas) que se realizam no mundo. Isso também permitira aos países integrantes da Opep com poucas divisas comercializar seus excedentes de petróleo de forma direta com outros países e compradores em troca de outras matérias-primas, bens e serviços dos quais necessitam: desde tratores e geradores a painéis solares, moinhos de vento, turbinas de água ou até acesso à Internet, a fim de melhorar os níveis de vida de suas respectivas populações rurais.
Talvez, o terceiro assalto deste combate seja um triunfo tanto para a Opep quanto para os Estados Unidos e o mundo.
- HAZEL HENDERSON é especialista em desenvolvimento sustentável e autora de livros sobre o assunto, em Saint Augustine, Flórida (EUA) (IPS)





