A opção vencedora de Bush
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quarta-feira, 26 de setembro de 2001
Hazel Henderson 
Muitos obstáculos e perigos políticos foram apontados ao presidente Bush, enquanto sua equipe se ocupa em articular uma resposta ao terrível ataque do dia 11. Entre essas advertências, está a necessidade de evitar qualquer rápida represália com o uso da força que possa causar a morte de mais civis. O Afeganistão já é um deserto de pobreza, seca e sofrimentos, enquanto os acampamentos de Osama bin Laden são móveis e difíceis de serem detectados. Recrutar aliados e alinhar a Otan para uma nova cruzada levaria a outra série de divisões do tipo ''nós contra eles'' que, posteriormente, poderiam criar inimizade entre os EUA e outros países e provocar o risco de novos ataques.
Bush pode aprender com seu pai e evitar essas armadilhas, se conseguir a unidade do mundo inteiro para participar de ações para pôr freio ao terrorismo. Ele tem, agora, US$ 40 bilhões de fundos para uso outorgados pelo Congresso. Ele bem poderia pegar US$ 500 milhões desse
dinheiro e pagar o resto de sua dívida com as Nações Unidas, a título de ações passadas da ONU para a manutenção da paz que foram totalmente aprovadas pelos EUA.
Por que isso é necessário? Porque, como seu pai durante a Guerra do Golfo, em 1991, Bush precisa criar a mais ampla coalizão de apoio aos EUA em sua luta contra o terrorismo. Somente as Nações Unidas podem dar o apoio de todos os países do mundo, por meio de uma resolução. Tal ação da ONU deve ser rápida e em apoio aos EUA, já que pode invocar o poder da lei internacional. Então, pode ser convocada rapidamente uma reunião de cúpula da ONU sobre o terrorismo, com o apoio dos aliados europeus e da Otan, além da inclusão dos países que querem livrar-se do flagelo terrorista. A nova ''guerra'', como estamos aprendendo, é diferente.
O modelo do ''cowboy'' do Velho Oeste, com seus ''revólveres fumegantes'', pertence ao século passado. Os EUA são o ator principal da atual globalização tecnológica e econômica. Tal inovação criou o mundo interdependente que agora compartilhamos com todos os povos, ricos e pobres, industrializados ou ainda na era do pastoreio. Os EUA eliminaram os muros de contenção entre as economias nacionais e, agora, enfrentam as consequências: maciços fluxos de ''dinheiro quente'' e as crises e contágios, já que todas as economias se movem para cima ou para baixo de forma sincronizada.
Do mesmo modo, os 2 bilhões de pessoas que no mundo sobrevivem com menos de US$ 2 por dia podem ver nos meios globais de comunicação nossas ostentações de riquezas e nosso frequente desperdício. O resultado desta interdependência global é a criação de ressentimentos e raiva, de desesperados imigrantes que buscam uma vida melhor e, inevitavelmente, de maiores riscos de terrorismo. Nós, nos EUA, estamos sendo chamados a adquirir maior maturidade, equiparada com nosso poder e riqueza. A realidade é que perdemos nossa inocência no dia 11.
A atual globalização econômica e tecnológica poderia terminar em outra recessão global e em uma guerra, como aconteceu com a globalização anterior, nos anos 30. Assim, para evitar isso, devemos ajudar a modelar uma economia mundial mais justa e ecologicamente mais sustentável. A miríade de acordos internacionais necessários para moldar essa mais saudável e equilibrada globalização deve reforçar o que já foi alcançado em matéria de direitos humanos, nas normas de proteção aos trabalhadores e nos tratados para proteger o meio ambiente.
Esses acordos foram negociados durante 55 anos pelas Nações Unidas e, ainda hoje, muitos mais necessitam ser ratificados pelos EUA, desde o Protocolo de Kyoto sobre alteração do clima até a criação do Tribunal Penal Internacional. Necessitamos da Interpol e de outros organismos internacionais para ajudar a capturar Osama bin Laden e seus cúmplices. Esses criminosos podem ser julgados na Corte de Haia, junto com Slobodan Milosevic, e outros que cometeram crimes contra toda a humanidade.
Os primeiros meses de unilateralismo de Bush, durante os quais revogou nada menos do que seis tratados internacionais e ameaçou com um sistema de defesa antimísseis, que deixaria sem efeito o Tratado sobre Mísseis Antibalísticos, causaram profundo aborrecimento, inclusive entre aliados. Bush necessita deles agora, bem como de outros países, para combater o terrorismo. Apenas as Nações Unidas têm a capacidade suficiente para levar todos os países a uma reunião de cúpula sobre o terrorismo, na qual, incluindo muitos países muçulmanos, possa-se dar forma a uma estratégia mundial para combater o flagelo. Tais estratégias vencedoras se tornarão mais frequentes e predominantes quando aprendermos as lições da interdependência mundial.
- HAZEL HENDERSON, de St. Augustine (EUA) é ensaísta, futuróloga e consultora em desenvolvimento sustentável (IPS)


