A opção de FHC
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 27 de fevereiro de 1997
Farage Kouri 
Mesmo se sabendo da ação predatória do clientelismo no âmbito governamental em que muitos membros do Congresso Nacional mergulham fundo no toma-lá-dá-cá e no é dando que se recebe, o presidente Fernando Henrique Cardoso tem razão quando diz que a vitória da tese da reeleição ficou de acordo com a vontade popular. O êxito até agora alcançado pelo plano de estabilização da economia evidentemente deve ser mantido e preservado, embora se saiba que este gigantesco esforço da sociedade brasileira esteja ancorado em frágeis estacas, ou seja: em artifícios de política econômica que devem ser utilizados apenas temporariamente porque são voláteis.
O fato, público e notório, é que sem as reformas estruturais este bom plano de estabilização não terá futuro. Acabará, como os planos anteriores, na vala comum da desorganização institucional que ainda impera em países considerados periféricos no contexto do desenvolvimento, agora do moderno desenvolvimento que vem transformando o mundo em uma aldeia global com regras universalizadas que simplesmente não podem ser adaptadas neste ou aquele país. Ao contrário, são os países que devem se adaptar a esse novos paradigmas se pretenderem ocupar espaços privilegiados na era da modernidade.
Essa diferenciação talvez seja o nó górdio que emperra a evolução do plano de estabilização da economia brasileira. Sempre tendo escudo a atitude democrática da discussão, do debate e da negociação no âmbito do Congresso Nacional, o Parlamento brasileiro retarda perigosamente a abordagem das reformas estruturais aguardando que espera apenas a oportunidade de negociar.
Parlamento deveria ter uma atitude mais nobre, ou pelo menos mais prática, buscando com a urgência que se faz necessária a pauta das reformas, até mesmo por uma razão política inteligente e amadurecida.
Se persistir tal atitude, os mentores políticos do grupo que ocupa o poder com certeza irão aconselhar o presidente Fernando Henrique Cardoso a fazer do tema das reformas o mote de sua próxima campanha eleitoral. Eles estarão apostando no imponderável, porque ninguém sabe até quando o plano de estabilização poderá se sustentar em suas frágeis estacas. Mais uma vez, ocorre o risco do país perder precioso tempo e se distanciar ainda mais do moderno desenvolvimento. Quando se alertar, terá sido demasiado tarde.
O jogo político é interessante, em alguns casos importantes, desde que não se perca de vista o interesse nacional. Se retardar as reformas, especialmente em função da inércia e os interesses menores que a promovem na esfera congressual, o presidente e seu grupo político estarão se revelando oportunistas, politiqueiros. Mas se optarem pelo bom senso aproveitando o desempenho que levou FHC a conquistar a possibilidade de se reeleger - mesmo pelos caminhos torturosos do clientelismo - o presidente brindará o país com as tão sonhadas reformas levando a nação brasileira ao patamar desejado. Assim, também poderá realizar seu próprio sonho, o de ser o estadista da história moderna do Brasil.


