A omissão do presidente - Kido Guerra
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terça-feira, 08 de setembro de 1998
Kido Guerra 
O Brasil que aparece no horário eleitoral gratuito não existe: ora é um país de fantasia, onde tudo é lindo e maravilhoso, ora é um país do caos. Não há meio termo. Ou, então, é um Brasil dos sonhos, um Brasil do futuro, com dezenas de candidatos, segundo eles mesmos, extremamente bem preparados para governar a Nação e capazes de resolver as mazelas nacionais. Mas onde está a verdade?
Com certeza, não nas promessas vagas de criação de 15 milhões de novos empregos no caso de um governo do PT, se Lula conseguir se eleger presidente da República. Mas também não está na afirmação do presidente-candidato, Fernando Henrique Cardoso, feita na última semana, de que seu governo gerou, nestes três anos e oito meses, uma quantidade de empregos suficiente para resolver o problema do desemprego em países como a França.
O presidente omitiu o essencial para uma informação completa e idônea: quantos empregos foram extintos durante o seu governo? Qual o saldo entre o número de empregados e desempregados neste final de mandato de FHC? Quantos desempregados existem no Brasil a mais, desde janeiro de 1995, quando Fernando Henrique Cardoso tomou posse?
Pela taxa oficial de desemprego divulgada mensalmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), uma repartição do governo federal, a resposta é preocupante: agora, existem muito mais desempregados do que no início do governo Fernando Henrique.
Em dezembro de 1994, às vésperas da posse de FHC, a taxa de desemprego medida pelo IBGE nas seis maiores regiões metropolitanas do País era de 3,42%. Em julho deste ano, mês que coincidiu com o início oficial da campanha eleitoral, o índice chegou a 8,02%, um das maiores dos últimos quinze anos.
Isso o presidente não disse nem no rádio nem na televisão. E nem vai dizer. Não na propaganda eleitoral gratuita. Será tarefa para os adversários.
Desde que as regras do marketing político moderno tomaram conta das campanhas eleitorais, é proibido falar a verdade, é proibido encarar os problemas. Os programas eleitorais - não só o do presidente-candidato Fernando Henrique - são uma mistura de ilha da fantasia com técnicas de neurolinguística, promessas, meias-verdades e, em alguns casos, denúncias contra os adversários.
Falta o essencial: informações claras e precisas, debates abertos sobre os problemas nacionais, estaduais ou municipais. Mas as regras do marketing não permitem: seria prejudicial ao candidato em questão.
É por esses motivos que no programa do presidente Fernando Henrique não se fala toda a verdade sobre a questão do desemprego no País. Nem se menciona a palavra crise, estampada nas manchetes dos principais jornais brasileiros há cerca de duas semanas, com mais um terremoto no sistema financeiro internacional.
Aliás, até mesmo um assunto de tamanha relevância para a vida do País é tratado como peça de marketing político: a crise que ameaça o Brasil só entrará no programa de Fernando Henrique se não houver mais como desconhecê-la.
Em tempos de campanha eleitoral, parece ser proibido falar em crise. A idéia vigente nos comandos das campanhas é que o eleitor não precisa saber toda a verdade.
- KIDO GUERRA é jornalista em Brasília


