A ofensiva militar e o discurso democrático
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de abril de 2003
Vinícius Vitorino Guimarães 
Fazer uma análise sobre a guerra no Iraque pressupõe-se a identificação da ''fraqueza'' do sistema democrático, o mesmo que George W. Bush busca orientar em seus discursos como prerrogativa para legitimar os ataques oriundos de seu país contra o lraque.
Bush acredita que os valores ocidentais da democracia devem ser respeitados e ampliados aos iraquianos que vivem sob o regime imposto por Saddam Hussein, não se pode chamar isto de belo discurso, porém ''serviria'' como argumento para justificar sua prática, não seus ideais. Afinal, discurso político tem um conteúdo que busca convencer, por isso o que interessa é o apoio e a legitimidade (nem isso Bush tem conseguido) mesmo que sua prática seja conduzida por ideais diferentes, daqueles que o discurso busca evidenciar.
O discurso de guerra utilizado pelos Estados Unidos, não convenceram nem legitimaram sua ação (com exceção do forte apoio interno que parece obter e o da maioria dos ingleses) por isso, os valores democráticos que Bush tanto defenderia em seus ditames sobre o acesso de suas tropas em território iraquiano, faz com que se evidencie o lado fraco que a democracia consolida.
Essa fraqueza está ligada aos preceitos da igualdade. O indivíduo que vive neste contexto de organização política, entende que a regra aplicável a ele é assim também para todos, por isso o indivíduo pode se tornar pequeno e a sociedade cresce, já que todos são semelhantes.
No plano do direito, entende-se um direito todo-poderoso que abrange toda a sociedade, o governo desta aparece como providencial e perde-se a noção de intermédio (a democracia pressupõe isto) já que a consciência e o imaginário social é de que o governo tem autoridade política total, e isto é algo que parece inato ao corpo social que sente em muitos casos a sua participação no sistema democrático somente no momento de votar e eleger seu candidato ao cargo político pretendido.
A democracia que homogeneiza o corpo social em torno do direito, é agora a justificativa discursiva para a covarde ação no Iraque. É necessário frisar que não se pode apoiar os atos de Saddam Hussein contra aqueles que reprovam seu regime no Iraque, no entanto, cada qual tem seu meio de entender e escolher (aquilo que a democracia pressupõe quando se fala em liberdade de expressão, crença...) seu modo de se organizar politicamente, algo que as resoluções da ONU pedem para ser respeitadas.
VINÍCIUS VITORINO GUIMARÃES é professor e historiador em Londrina


