Definitivamente, o Brasil parece caminhar na contramão da ciência. Daqui a dez ou vinte anos, quando novas gerações olharem para trás, é provável que considerem estapafúrdio um país que, em plena pandemia do novo coronavírus, ostentou como um troféu manifestações que parecem bizarras aos olhos de qualquer nação com senso de dever em relação à saúde pública.

Este ano, as manifestações pelo 7 de setembro, Dia da Independência do Brasil, contaram com cartazes insólitos nas ruas de Curitiba, com frases como: "Não queremos a vacina, queremos cloroquina", posicionamento que nos leva a mais de 100 anos atrás, quando a Revolta da Vacina transformou as ruas do Rio de Janeiro em cenário de guerra. A revolta, no caso, era pela obrigatoriedade de se vacinar contra a varíola, então um flagelo. A varíola só foi considerada erradicada no mundo, pela Organização Mundial de Saúde, nos anos 1980. Embora novos casos tenham sido registrados em 2016 após o degelo de regiões polares que descobriram cadáveres de pessoas que haviam morrido infectadas pelo vírus.

De tempos em tempos, a humanidade é assombrada por vírus e bactérias em suas diferentes mutações. Mais perigosas que as doenças é a transformação de seu controle ou disseminação em arma política.

Neste 7 de setembro, um país dividido em tudo protagonizou nas ruas essa divisão tendo de um lado a referida parcela da população que luta contra uma vacina que nem sequer ainda existe, em consonância com demonstrações de desprezo do presidente da República pela ciência. Na data cívica, ele compareceu a uma manifestação em Brasília sem máscara e cercado de pelo menos mil seguidores que transformam os protocolos da prevenção ao coronavírus em motivo de desdém não só em discurso insólitos - como o dos cartazes com frases simplistas - mas em prática.

Um séquito que parece saído de 1904, daquela ruidosa Revolta da Vacina, reproduz em palavras e atos um completo desconhecimento do que significa a ciência para o mundo contemporâneo. Um país que ruma para as 127 mil mortes ressuscita uma rebeldia grotesca que parece despertar no presente a doença que sequer enterramos, como no caso dos cadáveres descobertos nas regiões polares. Nossos mortos ainda estão baixando às sepulturas.

Aqui, o que se descobre é uma falta total de consciência em relação à ciência às voltas com a esperança de uma vacina que minimize o luto. Em oposição a tudo isso, um séquito motivado por ideologia põe em movimento uma pulsão de morte que tem como objetivo a anticiência. Só o mais declarado obscurantismo pode mover parcelas da humanidade na contramão da vida.

mockup