A nova revolução - Célio Henrique Lobo
A nova revolução
Célio Henrique Lobo
Desde a época da agricultura neolítica, a história da agricultura e da domesticação de animais se confunde com a história da seleção e do melhoramento genético destes seres vivos. O processo cíclico de coleta e plantio das melhores sementes pelos últimos 10 mil anos, por exemplo, proporcionou o surgimento de milhares de variedades mais produtivas que as originais. E produtividade é a palavra-chave. Agroecossistemas modernos são benéficos na medida em que oferecem uma fonte abundante e segura de alimentos.
No contexto da agricultura capitalista, a produtividade é decorrência direta da padronização de processos e produtos. Assim sendo, sistemas de melhoramento genético e técnicas de reprodução avançadas são ferramentas indispensáveis para tal padronização. É nesta linha que se oferece ao mercado novas plantas e produtos agrícolas transgênicos através da engenharia genética.
Retomando o aspecto da segurança para os indivíduos e o meio ambiente, é verdade que não existe risco zero, mas a ciência nos mostra que tecnologias derivadas da engenharia genética permitem prevenção e controle bem maiores quando comparados com aquelas de outras áreas, como, por exemplo, as da química.
Em contraponto, na euforia da revolução verde, não se antecipou os prejuízos ambientais de hoje. Os efeitos nocivos de fertilizantes químicos e pesticidas, dentre outros, utilizados para fornecer condições artificiais de cultivo e controlar as plantas invasoras, podem ser facilmente detectados na contaminação do solo, das águas e dos alimentos. Isto sem mencionar os aspectos sociais da necessidade de capital que contribuiu, sobremaneira, para o êxodo rural e o inchaço das grandes cidades.
Com a experiência do passado, é preciso ser crítico e cuidadoso, mas sem exageros. E, neste sentido, há de se considerar que a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) e demais órgãos governamentais competentes poderão ser responsabilizados, civil e criminalmente, se negligenciarem a exigência do Estudo Prévio de Impacto Ambiental (EIA-Rima) antes de liberarem Organismos Geneticamente Modificados OGMs, para comercialização.
Felizmente, guiados, de um lado, pela consciência dos custos ambientais e sociais da agricultura industrial e, de outro, por mecanismos de salvaguarda decorrentes de regulamentação embasada em um lastro científico irrefutável e livre de preconceitos, a direção que se vislumbra aponta para avanços tecnológicos, na produção e utilização de OGMs, seguros e potencialmente úteis na otimização das cadeias agro-industriais. Uma nova revolução verde!
Por que toda a panacéia envolvendo os OGMs? Rotulação de produtos transgênicos indistinguíveis dos não transgênicos! Período de moratória para testes! Parece que muito pode ser explicado por aspectos puramente comerciais. As somas envolvidas na venda de sementes transgênicas renderão lucros estratosféricos para as empresas autorizadas a comercializá-las. Concorrentes que não detêm o conhecimento tecnológico para produzir tais sementes, aproveitando do nacionalismo europeu que há tempos transcendeu a esfera ecológica e do conhecimento de muitos, incluindo japoneses, chineses e brasileiros, contribuem para a desinformação e proliferação de conceitos equivocados sobre os transgênicos. Com isto, ignora-se a possibilidade de se produzir alimentos mais baratos.
O Banco Mundial estima que serão cerca de 2 bilhões de pessoas vivendo com menos de US$ 1,00 por dia no ano 2015. Hoje, os números da miséria globalizada indicam um contigente de, aproximadamente, 1,5 bilhão. Neste cenário atemorizador, hipócritas e anti-éticos são os governos que se utilizam de cláusulas sociais e ambientais oportunistas no bloqueio às exportações de produtos como a soja transgênica.
À luz de ideologias fortes e conflitantes, não se pode esperar que posições antagônicas sobre a utilização dos OGMs convirjam para o consenso. Em última instância, é o mercado consumidor quem dita os rumos. Portanto, consumidores podem optar entre os produtos disponíveis por aqueles de melhor custo-benefício. Com efeito, no nosso País, de dimensões continentais, há área suficiente para se definir zonas exclusivas de não-transgênicos para suprir os mercados interno e externo, sem abdicar do direito legítimo de produção e comercialização dos transgênicos.
- CÉLIO HENRIQUE LOBO, Ph.D., é professor universitário em Umuarama





