A nova guerra total
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de julho de 2002
Rubem Azevedo Lima 
O neoliberalismo globalizou assimetrias econômicas e sociais entre países ricos e pobres e nas respectivas sociedades, consagrando também um tipo de guerra permanente, que precede a propriamente dita e prossegue depois dela. Noutras palavras: ao consolidar seus malefícios, tal regime criou a guerra sem fim.
A este repórter causou forte impressão uma passagem do filme ''Ladrões de Bicicleta'', de Vittorio de Sicca. É a cena em que o trabalhador e seu filho menino, aflitos, no pós-guerra de 1945, buscam a bicicleta que lhes roubaram. Ao longe, ouve-se um orador em comício de rua, como num contraponto ao filme clamar que ''a guerra é a destruição e a morte, e o pós-guerra é a falta de trabalho e de pão''.
O filme aborda precisamente o efeito desses males: a perda de valores morais, pelo estado de extrema necessidade a que as guerras levam suas vítimas inocentes. Hoje, porém, isso é pior, dada a situação de guerra larvar, ininterrupta, no mundo. Acabou a bipolarização ideológica e militar, mas a potência hegemônica, detentora do poder mundial, planeja e trabalha, sem cessar, para mantê-lo até 2025 no mínimo, a qualquer preço. Para isso, acha que vale tudo, haja o que houver, doa em quem doer.
O general Charles E. Wilhelm, do Comando de Forças Conjuntas dos EUA, disse, no Centro de Informações para Defesa, que a estratégia de guerra de seu país autoriza ''a realização de Operações Decisivas Rápidas (RDO), na área psicológica, econômica e cibernética''. Nessa, ''admite invadir computadores inimigos para impedir lançamento de mísseis (grifo do repórter) e proteger interesses americanos''.
Isso dá o que pensar. No jornal ''O Farol'', tribuna do nacionalismo, Ronaldo Schlichting mostra haver ''evidências de forte relação entre as explosões do foguete VLS, ao lançar-se um satélite nacional, em dezembro de 1999, na base de Alcântara, e a assinatura da cessão de tal centro'', que é o objetivo do acordo Brasil-EUA, assunto controvertido, contra o qual há grande resistência em nosso Congresso.
Suas conclusões são consistentes, pois o ex-presidente da Comissão de Defesa Nacional, da Câmara, deputado Hélio Costa, revelou que um navio americano rastreara aquele lançamento, a distância. Para Schlichting, tal navio pode ter disparado, eletronicamente, o sinal que explodiu o foguete propulsor do lançamento.
Por que uma CPI não elucida esse mistério? Afinal, os bons brasileiros têm o direito e o dever de cuidar, decentemente, dos interesses nacionais. Desde, claro, que nunca pensem nem queiram fazê-lo como os maus americanos, com os dos EUA.
RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília


