A nova fronteira do socialismo europeu - Massimo DAlema
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de julho de 1998
Massimo DAlema 
Foi reaberto na Itália, de uma forma virulenta e improvisada, o debate sobre os crimes do comunismo e as responsabilidades dos ex-comunistas. Essa polêmica têm visíveis intenções políticas de questionar a legitimidade do Partido Democrático de Esquerda (PDS) - ex-Partido Comunista Italiano (PCI). O PDS é hoje a maior força de sustentação do governo italiano.
Os setores conservadores, derrotados politicamente, acreditam que desta maneira conseguirão introduzir na vida italiana um prejuízo ideológico que lhes permita reconstruir o sistema político sobre a superada dualidade comunismo x anti-comunismo, como se um e outro não fossem um estorvo do século que chega ao fim. No entanto, além de tais motivações, é inquestionável que o tema enfoca uma autêntica tragédia que toca profundamente nossas consciências.
O movimento comunista foi concebido em suas origens como um projeto de libertação humana. Porém, em todos os países onde chegou ao poder transformou-se rapidamente em uma força opressora que instalou um totalitarismo que cometeu crimes enormes. O PCI participou desta história e manteve uma longa, dramática e complexa relação com o comunismo soviético, nascido da revolução de outubro.
É inquestionável que o comunismo italiano teve desde seu início, com seu líder Antonio Gramsci, uma marca original. Mas não se pode negar que depois, nos sombrios anos do stalinismo, o PCI dirigido por Palmiro Togliatti assumiu uma posição de reticência e co-responsabilidade. Contudo, o PCI foi capaz de elaborar gradualmente uma visão autônoma, assim como questionou as causas de fundo do totalitarismo comunista: sua concepção do partido e do Estado, a negação dos valores universais da democracia e a liberdade em todos os seus aspectos (sociais, religiosos, econômicos e culturais).
Foi um caminho atormentado, cheio de contradições, de reticências e de timidez, lento, demorado em suas conclusões finais. Durante aqueles anos pensávamos que a vinculação com o comunismo soviético era uma garantia de nossa postura opositora e de alternativa para as forças dominantes na Itália.
Justificávamos essa ambiguidade com a esperança de que fosse possível promover uma reforma democrática do comunismo a partir de seu interior, e que em tal sentido pudesse dar seu aporte uma força interposta entre a esquerda democrática ocidental e o comunismo do Leste, como era precisamente o PCI. Tais convicções foram a causa de erros e demoras. A história não nos deu razão e a queda do Muro de Berlim levou junto as ilusões sobre um comunismo democrático e, por conseguinte, da experiência original que o PCI havia representado.
Este processo, que para alguns pode ser hoje motivo de uma fácil polêmica, tem sido para nós uma penosa experiência pessoal que nos levou a tomar difíceis opções. Optamos, no entanto, pela democracia e hoje reconhecemos que a esquerda democrática - socialista, laica ou católica - teve o mérito de ter compreendido antes e mais claramente que nós, que sob as bandeiras do comunismo não seria criado o homem novo. Pelo contrário, se impunha uma forma odiosa de opressão do homem sobre o homem.
Por essa razão o PDS quer agora construir junto com essas forças a nova esquerda italiana. Este processo também ajuda a compreender por que a esquerda, depois da queda do comunismo e - em outra esfera - apesar da crise dos modelos social-democratas, não somente não desapareceu como está vivendo uma época nova, rica de possibilidades e esperanças. Tais mudanças deram à esquerda estímulos para se renovar e explorar soluções inovadoras.
O socialismo europeu soube interpretar as novas exigências e se apresentou como alternativa para as forças neoliberais, que não foram capazes de dar respostas compatíveis com exigências humanas impossíveis de renunciar, tanto no Leste como no Oeste do continente. Assim se explica o extraordinário retorno da esquerda a posições do governo em quase todo o Velho Continente nos dois últimos anos.
Graças à virada de 1991 - quando uma ampla maioria de seus membros dissolveu o Partido Comunista e criou o PDS - nosso partido foi o primeiro que compreendeu a situação que se havia criado na Itália - onde a ausência de uma alternância política estava alimentando um mecanismo de corrupção em grande escala - e as mudanças que se registravam no mundo. Nesse contexto, o nascimento do PDS nos permitiu antecipar a transformação e participar dela como protagonistas.
Um dos grandes problemas que hoje a esquerda encara é a reforma do chamado Estado Social ou de Bem-Estar, que não pode limitar-se a uma mera contenção de gastos assistenciais, mas que deve conduzir a um novo pacto social. A Europa se levantou contra a onda neoliberal que tratou de eliminar essa grande conquista deste século. Mas a esquerda que hoje regressa ao governo adverte que a mera defesa do sistema atual não é o caminho mais adequado. Sabe que é necessário conceber um novo modelo de substituição de um sistema de proteções articulado com base nos trabalhadores masculinos e adultos.
Diante deste dilema, uma esquerda moderna deve estar disposta a admitir inclusive que existam menos garantias para os beneficiários do velho modelo, em troca de dar tutela e oportunidades aos mais fracos: os jovens e as mulheres, as famílias mais pobres, os doentes, os que estão em maior desvantagem.
Estamos abrindo novos caminhos. E frente aos desafios da globalização da economia nos dispomos a alargar as fronteiras da democracia, das liberdades, dos direitos humanos e do trabalho. Essas são as tarefas que convocam a esquerda e constituem sua razão de ser. Por isso a esquerda existe e continuará existindo.
- MASSIMO DALEMA é deputado e líder do PDS (Partido Democrático de Esquerda) na Itália


