Durante muitas décadas, o agronegócio brasileiro construiu sua história sobre uma combinação de terras férteis, tecnologia e produtividade crescente. A combinação desses três fatores e mais a dedicação dos homens e mulheres que trabalham no campo tornaram o país um dos maiores fornecedores de alimentos do mundo. Também fez da soja um dos principais motores da economia nacional. Mas a realidade que se desenha no cenário internacional mostra que produzir muito já não será suficiente.

Essa foi uma das principais conclusões das discussões promovidas durante o VIII Seminário Desafios da Liderança Brasileira no Mercado Mundial de Soja, realizado pela Embrapa Soja, em Londrina. O mote reforça a constatação que deveria orientar o planejamento estratégico do país: a competitividade do agro brasileiro dependerá, cada vez mais, da capacidade de agregar valor, investir em inovação, ampliar a sustentabilidade e superar seus históricos gargalos estruturais.

A necessidade desse redesenho no setor vem na esteira da crescente tensão geopolítica internacional, das mudanças nas estratégias comerciais da China e das novas exigências da União Europeia. Especialistas avaliam que a competitividade do agronegócio brasileiro dependerá cada vez menos do volume produzido e sim da capacidade de agregar valor, investir em tecnologia e reduzir vulnerabilidades.

A geopolítica entrou definitivamente na fazenda. Não basta, para o produtor rural, compreender aspectos como clima, mercado e custos de produção. Hoje, decisões tomadas em Pequim, Bruxelas ou Washington influenciam diretamente o futuro das propriedades rurais brasileiras.

A China, principal compradora da produção nacional, deixou claro que pretende reduzir gradativamente sua dependência externa. Continuará importando alimentos, mas exigirá mais rastreabilidade, qualidade, tecnologia e segurança das cadeias produtivas. Já a União Europeia eleva continuamente as exigências ambientais e de sustentabilidade. Não basta produzir; será necessário comprovar, documentar e comunicar cada etapa da produção.

Nenhum desses movimentos deveria ser encarado como ameaça porque representam um convite para que o Brasil finalmente avance em uma agenda que há muito tempo precisa sair do discurso.

O país reúne vantagens difíceis de replicar. Domina a agricultura tropical como poucos, dispõe de recursos naturais abundantes, desenvolveu pesquisa científica de excelência e construiu um setor produtivo altamente eficiente. Entretanto, continua desperdiçando parte desse potencial ao exportar, majoritariamente, matéria-prima. A lógica precisa ser invertida e a palavra de ordem é agregar valor.

Também será indispensável abandonar a cultura do imediatismo. Enquanto países como a China estruturam políticas para as próximas décadas, o Brasil frequentemente limita seu planejamento ao próximo ciclo econômico ou eleitoral. Essa visão de curto prazo compromete investimentos essenciais em infraestrutura, pesquisa e inovação.

O agronegócio continuará sendo um dos pilares da economia brasileira. Porém, sua liderança futura não será determinada apenas pelo tamanho das colheitas. Será medida pela capacidade de inovar, diversificar mercados, desenvolver tecnologia, construir parcerias estratégicas e transformar conhecimento em riqueza.

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