O resultado final das eleições, após o escrutínio do segundo turno, trouxe à tona uma realidade que permanecia latente desde que o processo de abertura democrática foi iniciado com o fim do regime militar. É como se a Nação, após o renascimento, tivesse passado pela infância, adolescência e chegado enfim à idade adulta, jovem, porém decidida.
A sucessão configurada nos maiores colégios eleitorais do País, consequentemente nos principais municípios, mostra claramente a opção popular pela social-democracia; senão pelo amadurecimento da visão partidária do cidadão, pela sua clara desaprovação ao modelo tradicional da política vigente, ao populismo e às vinculações com grupos econômicos.
É desnecessária qualquer formação específica para perceber que nada acontece por acaso, que a toda causa corresponde um efeito, e que na política como na vida, tudo evolui e se modifica constantemente. O passado tem sido constantemente analisado, até para que não cometamos os mesmos erros, mas para planejar um futuro coerente temos que fazer uma avaliação criteriosa do presente.
Comecemos por Curitiba, a capital e maior colégio eleitoral do Paraná, onde o resultado das urnas, embora no final desfavorável à coligação PT-PPS, mostrou um desempenho sofrível da situação, que até os últimos minutos da apuração, e apesar de ter feito uma campanha pesadíssima em todos os sentidos, sentiu a rejeição de metade dos eleitores, o que coloca em cheque a sua governabilidade durante o próximo mandato.
Em Londrina, o processo transcorreu de forma mais calma, embora até os últimos minutos ainda se esperasse sinais de que algo pudesse perturbar a paulatina e ininterrupta ascensão de Nedson Micheleti e Luiz Carlos Bracarense, talvez pela incredulidade de uma sociedade calejada por campanhas repletas de baixarias e ataques pessoais; no entanto, as provocações foram ignoradas e venceu o discurso programático e ideológico, conduzido de forma inabalável pelo vencedor.
Também em Maringá venceu o PT, e as outras siglas de oposição como PPS e PDT nos locais onde apresentou candidatos compromissados com as ideologias e livres de amarras de figuras carimbadas da política local, estadual e nacional.
Em nível nacional, São Paulo tropeçou ao levar o populista Maluf ao segundo turno, mas deu o exemplo ao eleger Marta Suplicy para a prefeitura, apesar da estratégia de responsabilização do PT pelas falhas eventualmente cometidas na administração de Luiza Erundina. Também Goiânia fez um prefeito do PT.
Nas principais cidades do Brasil – como Porto Alegre, Campinas, Caxias do Sul – podemos encontrar exemplos de vitória da oposição, que os meios de comunicação e os institutos de pesquisa mais tradicionais acabam divulgando como uma surpresa, embora os mais observadores prefiram entender como uma verdade anunciada, já que decorrente do amadurecimento e emancipação do povo.
A Teoria do Contrato Social de Jean Jacques Rousseau, projetada para nossos dias, explica o atual resultado pelo princípio da soberania popular, na convenção de que o homem concede seus direitos à coletividade na condição de participar da formação da chamada vontade geral formadora do Estado, manifestada pela democracia do voto.
A conclusão para o futuro é de que a direção está tomada, e embora alguns prefiram desvincular este momento da preparação para as eleições 2002, o recado já foi dado. As lideranças reveladas e arejadas deverão ser fortalecidas no tônico da inovação, o que só poderá ser conseguido com a união das oposições na ideologia da ética e da coerência agora consagradas.
É o nítido caminho da emancipação de um povo que não mais se contenta em apenas assistir impassível o decorrer da história, e se manifesta publicamente querendo ser o ator principal da transformação que poderá nos levar, a todos, a um futuro de conquistas realmente importantes em todos os setores da sociedade.
- CLÁUDIA PROCHET é advogada em Londrina

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