A nova face da oposição - André Stumpf
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quinta-feira, 14 de janeiro de 1999
André Stumpf 
O presidente Fernando Henrique Cardoso acostumou-se a governar sem oposição. O único resquício de atividade política contrária ao ideário do Palácio do Planalto está concentrado na ação de Luiz Inácio Lula da Silva e seus seguidores no Partido dos Trabalhadores. O PT, contudo, tem-se mantido rigorosamente dentro de um monólogo, repetitivo, que não acrescenta fato novo nem produz argumentos que levem o governo a repensar suas atitudes.
O PT tem sido uma oposição necessária, tolerável e previsível. O governo, por sua vez, elegeu uma série de prioridades da área econômica e entregou parte do poder aos tecnocratas. Hoje, o termômetro da política nacional é o índice da bolsa de valores. Seu sobe-e-desce faz o humor dos homens públicos. A atividade política está revestida por um discurso monocórdio que vai da necessidade das reformas até o atendimento dos interesses dos investidores estrangeiros.
Os tecnocratas e os gênios da economia não enxergam o país do desemprego. Eles têm olhos de ver apenas o interesse externo. É aí que se coloca o fenômeno Itamar Franco. É fenômeno porque poucos políticos foram tão criticados quanto ele. É chamado de louco, irresponsável, além de outros adjetivos menos publicáveis. Mas ele foi prefeito de Juiz de Fora, deputado, senador, presidente da República e é agora governador de Minas Gerais. Vê-se, portanto, que ele pode ser louco, mas não rasga votos. Ao contrário, os coleciona.
Na presidência da República, Itamar enfrentou os tecnocratas do antigo regime e os afastou do poder. Abriu espaço para que a equipe do então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, produzisse seu programa econômico. Desde 1930 até hoje, nenhum presidente da República deixou o governo com dinheiro em caixa e a moeda estabilizada. Mais que isso, nenhum deles indicou e elegeu seu sucessor. Itamar, o louco, fez tudo isso, numa administração de apenas três anos.
É claro que entre ele e o presidente Fernando Henrique há uma rixa de criador e criatura. No entanto, o governador de Minas ultrapassou as grosserias da convenção do PMDB, no início do ano, e venceu, em seu Estado, o candidato do governo, ou seja, na contramão e contra a correnteza, Itamar chegou ao Palácio da Liberdade. E capricha no seu discurso de oposição. Ele não entra na cilada de debater a economia nacional, governa para os mineiros, que gostam de política, de uma boa briga com tinturas nacionalistas e apreciam a perspectiva de retomar o poder federal.
As declarações do governador de Minas o colocaram onde todos os políticos mais gostam de estar. No centro das atenções. Desta vez o assunto foi o pagamento das dívidas externas assumidas pelo Estado. Haverá outras desavenças e outros motivos. Itamar está criando, na verdade, uma alternativa à política econômica do governo Fernando Henrique.
Em Brasília, cresce a idéia de retaliar, cortando créditos, verbas e eventuais vantagens com o objetivo de colocar o governador contra a parede. Pode ser prático, mas não parece inteligente. A bancada mineira é forte e congrega gente experiente. Sabe como se comportar no Congresso. É um problema de proporções federais. Mas é uma questão política. Em verdade, Itamar trabalha para ser o principal líder em seu Estado e se transformar na alternativa ao projeto de poder dos paulistas. Brigas entre paulistas e mineiros são tão antigas quanto a política no Brasil. Itamar Franco é a nova face da oposição.
- ANDRÉ STUMPF é jornalista em Brasília


