Gaudêncio Torquato
Há uma nova e forte articulação social em marcha no País, pouco detectada por pesquisas e quase despercebida pelos cientistas políticos. A força emergente da sociedade nasce nos grupamentos organizados, na ‘‘nova classe’’ integrada por segmentos do empresariado médio, principalmente do setor terciário, que vive fase de grande expansão, pela estrutura do comércio das cidades-pólo do interior e pelas correntes de trabalho voluntário e religiosidade que se espalham pelo País, levando mensagens de solidariedade, esperança e renovação.
Em ‘‘Assim falou Zaratustra’’, Nietzsche expressa um pensamento muito apropriado para radiografar o estado de espírito da força social emergente: ‘‘Novos caminhos sigo, uma nova fala me empolga; como todos os criadores, cansei-me das velhas línguas. Não quer mais, o meu espírito, caminhar com solas gastas.’ O sapato esburacado da elite tradicional está sendo paulatinamente abandonado, junto com as línguas de centros tradicionais que, historicamente, têm assumido a função de porta-voz do pensamento nacional, como Fiesp, Centrais Sindicais e até a constelação dos partidos políticos.
Entre os fatores que explicam o fenômeno, alguns são claramente perceptíveis, a partir da saturação das formas de operação política e esgotamento dos perfis partidários. A cada eleição, mudam-se as regras do jogo, mas as alterações não oxigenam a vida política. Trata-se de uma articulação casuística para perpetuar um sistema corrompido. Os quadros e perfis de liderança são praticamente os mesmos, fato que explica a ascensão de figuras menos identificadas com a ‘‘política bolorenta’’, como Ciro Gomes, Anthony Garotinho, ou mulheres como Marta Suplicy e Luiza Erundina. A transitoriedade do regrismo eleitoral é apenas mais um sinal da política de interesses e de uma representação parlamentar contaminada com casos sucessivos de desvios éticos, corrupção e patrocínio de gangues.
Uma nova consciência se instala no centro da sociedade. Os partidos tradicionais, nascidos e desenvolvidos a partir de discursos assentados em densos eixos doutrinários, perdem substância com o declínio das ideologias e a extinção das clivagens partidárias do passado, amparadas no antagonismo de classes. A expansão econômica e a diminuição do emprego no setor secundário em proveito do setor terciário estiolam a força das grandes estruturas de mobilização sindical e negociação. Novos movimentos se formam, como o MST, e os grupamentos corporativos crescem na esteira de uma micropolítica, que se volta para a defesa pragmática de setores, regiões e comunidades.
Nessa moldura, a democracia representativa está sendo exercida também pelo universo de entidades intermediárias, com forte prejuízo para a instituição política tradicional, caracterizada pelos ‘‘catch-all parties’’ (‘‘partidos, agarrem tudo o que puderem’’), na expressão de Otto Kirchheimer. Não é à toa que os nomes de candidatos, entre nós, têm prevalência sobre os partidos. Os perfis mais atraentes são os funcionais-assépticos, descomprometidos com esquemas corrompidos, de propostas diretas, objetivas e que se comunicam diretamente com o eleitorado. A impopularidade de Fernando Henrique tem muito a ver com a embalagem que lhe proporcionam as estruturas e formas tradicionais da política. Ele foi um novo conspurcado pela ortodoxia caduca e fisiológica.
A falta de continuidade na administração pública também proporciona desconforto e descrença. O povo tem a sensação de que estamos sempre recomeçando, saindo do nada. O novo governante apaga tudo que o antecessor construiu, inclusive as coisas boas. O fato desmotiva, gera desesperança. Por isso mesmo, o povo acalenta farta dose de apatia. Deixa as decisões para a última hora. Não é de se admirar que alguém com forte intenção de voto, hoje, fique na lanterninha nas eleições. Há que se olhar, nesse momento, com certo ceticismo para as pesquisas de opinião, que não incorporam em seus questionários, fatores que formam a nova articulação social e o caráter intensamente migratório das decisões populares.
Na nova parede, a mulher tem destaque. Ela não quer mais ser apenas figuração de cenário. Assume, cada vez mais, papel de co-adjuvante. Como diria Margareth, ex-mulher do ex-primeiro ministro do Canadá, Pierre Trudeau: ‘‘Quero ser algo mais que uma rosa na lapela do meu marido.’
Pintar qualquer cenário futurista só dará certo se a tinta contiver a nova policromia social.

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