As duas principais forças econômicas globais do momento estão atraindo, por diferentes motivos, a atenção do mundo. De um lado está a promessa de uma ‘‘nova economia’’, baseada em modernas tecnologias da informação e da comunicação, que desperta o interesse dos que formulam as políticas, inclusive nos países mais pobres do planeta. De outro, a crescente instabilidade e a incerteza vinculadas à globalização deixam os dirigentes políticos extremamente preocupados, em particular com relação ao impacto das comoções financeiras sobre as perspectivas de crescimento econômico.
Até agora, os Estados Unidos são o único exemplo de um país capaz de aproveitar, em seu próprio benefício, a ação dessas duas forças. Em alguns setores a difusão das novas tecnologias impulsionaram significativamente a produtividade e elevaram o potencial de crescimento. Em contraste a isto, o impacto das novas tecnologias foi bem menos evidente na maior parte da Europa e no Japão. A economia dos Estados Unidos também foi ajudada pela incerteza geral da economia global: crises financeiras nos mercados emergentes ajudaram a sustentar seu rápido crescimento, na medida em que o capital é atraído por este porto seguro e que as importações baratas ajudam a conter a inflação.
As disparidades no ritmo de crescimento dentro do mundo industrial e um dólar forte tiveram reflexos em crescentes desequilíbrios comerciais, na medida em que os Estados Unidos converteram-se no ‘‘comprador de última instância do mundo’’. Aqueles países com excedentes comerciais estão mais desejosos de guardar nos Estados Unidos sua renda em dólares. Ao mesmo tempo, a combinação de inovações tecnológicas e financeiras agravam a fragilidade subjacente dos atuais fluxos financeiros e comerciais. A vulnerabilidade dos países em desenvolvimento diante de qualquer mudança de políticas nos principais países industriais dependerá, por conseguinte, de seu atual estado de saúde. As reativações, mais fortes do que o esperado, em algumas economias mais duramente atingidas pela crise proporcionam certa esperança.
Porém, a persistência de obliquidades e assimetrias no sistema comercial, a incerteza estrutural e a volatilidade continuam caracterizando o sistema financeiro, o que faz com que o crescimento continue sendo, em muitos países, refém dos instáveis fluxos de capital. Os problemas que enfrenta grande parte da África são de diferente ordem. O desafio fundamental continua sendo, ali, o de superar a limitada poupança interna e a escassez de divisas, bem como de aumentar os investimentos para impulsionar um crescimento de, pelo menos, 6% ao ano.
O atual montante de afluência de capital privado é extremamente pequeno para encher o buraco existente, mas, ao mesmo tempo, resulta suficientemente grande para que as economias de muitos países africanos se vejam vulneráveis diante das oscilações dos fluxos de capital de curto prazo. O único caminho para terminar com a dependência da África da ajuda externa é lançar um programa maciço de ajuda e sustentar um crescimento rápido por um período suficientemente longo para permitir que a poupança doméstica e os fluxos privados externos substituam, gradualmente, a ajuda oficial externa.
O ritmo da recuperação da Ásia Oriental no ano passado foi animador, embora o fato de os dirigentes políticos não terem conseguido prever a profundidade da crise devesse motivar cautela contra excessivas euforias. Existem, ainda, motivos para preocupação. Em primeiro lugar, a reativação foi acompanhada por uma reestruturação empresarial extremamente limitada e a saúde do sistema financeiro da Ásia Oriental continua dependente das intervenções públicas relativas a créditos. Em segundo lugar, é improvável que suas exportações continuem no mesmo ritmo recente, enquanto o déficit público e a dívida aumentam na maioria dos países seriamente afetados pela crise.
Como um rigor fiscal prematuro pode sufocar o crescimento, a consolidação fiscal deve esperar até que a demanda privada ganhe força suficiente para impulsionar o crescimento. Entretanto, isto poderia ser retardado pelo persistente desemprego e pela existência de excesso de capacidade ociosa em muitas indústrias. Finalmente, a reativação foi mantida, até aqui, por condições altamente favoráveis na economia mundial que são susceptíveis de alteração. Portanto, uma brusca redução da velocidade na economia dos Estados Unidos e uma deterioração nas condições financeiras globais poderiam ser particularmente prejudiciais.
Uma lição fundamental das crises financeiras é, seguramente, que a excessiva dependência dos recursos externos e dos mercados deixa as perspectivas de crescimento em condições de vulnerabilidade diante das comoções externas. Num sistema financeiro e comercial mundial crescentemente interdependente, fica claro que a confiança nas forças do mercado e nas políticas monetárias, por si só, não será suficiente. É necessário incrementar a cooperação e o diálogo internacionais se se deseja que o potencial completo das novas tecnologias reduza a brecha cada vez maior entre ricos e pobres.
- RUBENS RICÚPERO é o secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) em Genebra (IPS)

mockup