Não há como contestar a realidade, porque a tragédia do aeroporto de Congonhas ocorreu por negligência das autoridades governamentais e dos responsáveis pelo setor da segurança aeroviária. Porque a recente reforma na pista não foi concluída e ainda faltavam as ranhuras transversais, que drenam a água e permitem a aderência. Só nesta semana ocorreram três derrapagens, culminando com esta que foi fatal. Há três dias um avião da empresa Pantanal derrapou na pista e foi parar no gramado, e logo depois um da TAM teve problema idêntico mas conseguiu parar. A terceira aeronave, também da TAM, não teve a mesma sorte.
A Aeronáutica tenta amenizar as coisas dizendo que o avião fatídico não derrapou e que o piloto tentou arremeter. Essa tentativa realmente ocorreu, mas as autoridades vão agora querer justificar o injustificável, porque a pista foi liberada antes do tempo. As ranhuras - a que se dá o nome de grooving - áainda não haviam sido feitas. Ademais, há quem defenda que a pista deveria ter concreto poroso, para segurar as rodas no momento da freagem, mas que tal solução, no entender da Infraero, custaria milhões. Por conta de economia, por pressa de utilizar a pista inacabada e oferecendo perigo, quase duas centenas de pessoas perdem a vida, mais o prejuízo material, que resulta mais caro do que o que seria investido numa obra segura.
Este e outros dramáticos acidentes já acontecidos em Congonhas robustecem as vozes populares e de estudiosos da questão, que recomendam desativar esse campo de operações situado dentro da cidade de São Paulo. Há quem o denomine ''pista naval'', que são as instaladas nos porta-aviões e têm nas extremidades apenas o mar. No caso de São Paulo, essas extremidades são construções residenciais e comerciais. Como diz a presidente do grupo Parentes e Vítimas de Acidentes Aéreos, Sandra Ássali, de São Paulo, este caso foi ''uma tragédia anunciada'', e assim teriam sido todas as anteriores, muitas delas felizmente sem vítimas.
Os vaticínios são assustadores, com o sinistro indicativo de mais acidentes possíveis, porque o aeroporto de Congonhas não tem extensões da pista - nas laterais e na continuidade - que permitiriam mais segurança nas eventuais derrapagens e que ao menos preservariam vidas. Mesmo ante a afirmação de uma autoridade de que o avião pousou em velocidade alta demais, uma pista mais longa teria possibilitado a finalização da aterrisagem. Agora todos correm, com a intenção oportunista de desviar as atenções para a realidade, e a própria Presidência da República criou um ''gabinete de emergência'' para atender os procedimentos com as vítimas e parentes. Essa proteção deveria ter ocorrido antes e de outra forma e não depois que a tragédia acontece.

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