A necessidade de um novo PT - Jales Marinho
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terça-feira, 06 de outubro de 1998
Jales Marinho 
Em entrevista à imprensa antes da surpreendente votação obtida em São Paulo, a candidata do PT, Marta Suplicy (que disputava ontem com o governador licenciado Mário Covas, do PSDB, o direito de concorrer com o ex-governador Paulo Maluf, do PPB, ao governo de São Paulo no segundo turno), defendia a necessidade de o Partido dos Trabalhadores trabalhar, a partir de agora, após as eleições, sua imagem para buscar maior identidade com o eleitorado brasileiro. Marta disse que uma das maiores dificuldades que encontrou na campanha foi carregar a imagem carrancuda do partido.
O PT tem que ir além. Mudar apenas a imagem não é suficiente. A própria esquerda brasileira tem que mudar seu perfil e repensar seu caminho a partir da terceira derrota do candidato Luiz Inácio Lula da Silva.
O jornalista argentino Andres Oppenheimer escreveu, sobre as eleições de domingo, que o que mais interessa a ele nessa disputa não seria tanto a vitória do presidente-candidato Fernando Henrique Cardoso, mas a derrota de Lula, lembrando que em termos de América Latina essa vitória marca o fim da velha esquerda. O jornalista não cita nomes, mas certamente incluiria nessa velha esquerda figuras como Leonel Brizola e Miguel Arraes, que perderam mais espaço nesta eleição do que o próprio Lula.
Oppenheimer lembra que a esquerda brasileira não conseguiu capitalizar os problemas do País - como os principais, desemprego e as desigualdades sociais - por ter uma linguagem antiquada. E não perdoa nem mesmo Lula que, na sua opinião, ainda fala como representante da esquerda dos anos 60.
Há razão no que ele diz. Afinal, as lideranças de maior sucesso nestas eleições - a deputada Marta Suplicy e o governador Cristóvam Buarque, do Distrito Federal, que disputa o segundo turno - são as figuras que apresentam perfil mais palatável para os eleitores não petistas e que, sendo vitoriosos ou não no segundo turno, já despontam como os nomes que podem liderar as mudanças no PT e conduzir o partido para um novo caminho.
O PT tem que se esforçar para deixar de ser um partido da elite corporativa e se transformar em partido de massas. Ao Partido dos Trabalhadores, como principal partido das esquerdas tanto no Brasil quanto na própria América Latina, não basta mudar esse perfil. É imprescindível um esforço no sentido da sua interiorização, para se fazer presente nos grotões que alimentam e dão sustentação aos partidos conservadores e onde a legenda é mais rejeitada.
O partido tem avançado expressivamente no Nordeste, o que parece contraproducente. Entretanto, o PT que cresce na região mais pobre do País é o mesmo PT corporativo e burocrático do Centro-Sul. Não é o partido dos trabalhadores rurais e urbanos que, com sua militância, podem transformá-lo em um partido de massas.
Como se vê, a esquerda brasileira, para crescer e chegar ao poder, tem que abandonar os ranços do passado e sair à procura de seu Tony Blair ou do seu Gerard Schröoeder. Por isso, eventual vitória de Marta (se for confirmada sua ida para o segundo turno com Maluf), em São Paulo, e a de Cristóvam, no Distrito Federal, serão tão importantes para esse projeto das esquerdas.
- JALES MARINHO é jornalista em Brasília


