Se navegar é preciso, o PMDB está à procura de um timoneiro que o conduza a um norte seguro. A revitalização do partido depende de uma única condição: colar-se ao povo, ser sua voz e sua esperança, para realizar as reformas necessárias, sem impor sacrifícios intoleráveis ao País.

É mister recapitular. Junto com o povo, o PMDB derrotou a ditadura; sustentou o período confuso e difícil da transição política, para legar ao Brasil uma Constituição legítima. Vimos frustradas a campanha popular pelas eleições diretas em 1984. Quando lutávamos pela mudança imediata do regime, restou-nos o caminho das eleições indiretas.

Juntos sofremos a morte do presidente Tancredo Neves, mas coube ao PMDB a sustentação do compromisso de redemocratizar o País. A participação e a conclusão dos trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte, converteram-se no compromisso principal do partido, no qual teve atuação exemplar.

Para realizar esta travessia histórica sem risco de retrocesso, o PMDB assumiu o encargo de sustentar o governo fraco e heterogêneo da Nova República, com um presidente vacilante e sem projeto indicado pela dissidência do regime militar que se revelou incapaz de enfrentar a crise econômica iniciada nos anos 70; e arrastada ao longo da política de recessão, imposta ao País no período de 1981 a 1984.

O PMDB se integrou ao bloco do governo no Congresso. É o maior partido do Brasil, e elegeu as maiores bancadas do Senado e da Câmara Federal. Se é governo e se é o maior segmento partidário deste, seria lógico ali ter uma participação reconhecedora da sua expressão. O que se passa, no entanto, é o oposto. Tudo é feito para ignorar os peemedebistas. Pode haver algum em alguns ou em muitos, mas em termos políticos não o é.

O PMDB foi a principal força política de sustentação do governo de transição. Se de um lado a liberdade e a democracia foram asseguradas e as suas bases foram consolidadas com a Constituição, de outro lado, o agravamento da crise aumentou com a miséria, a injustiça e a desigualdade. Os direitos e conquistas sociais afirmados pela Constituição de 1988, no viés da prática, estão sendo gradualmente retalhados por medidas provisórias e legislação ordinária.

Com propriedade, o então senador da República pelo PMDB-SP, Fernando Henrique Cardoso, concluiu pronunciamento no Senado em 26 de abril de 1984: ''Não está, portanto, a oposição e, menos ainda, o PMDB, como muitos querem fazer ver à opinião pública, entrincheirada na crença de que não é possível o avanço democrático sem contar efetivamente, com a sociedade e com a mobilização popular, da qual não abrimos mão. Não aceitamos a idéia de que ou se negocia ou se mobiliza. Não é assim. Sem mobilização popular, o diálogo é vazio; sem que realmente falemos em nome de alguém, ou de muitos que estão por trás de nós, dizemos, as nossas palavras transformaram-se em mero acordo de elites, que se vai desfazer ao primeiro embate com uma sociedade vigorosa. Nós preferimos ficar entrincheirados na sociedade a corrermos o risco de capitular, mesmo que tenhamos tido a mais alta motivação nos corredores palacianos.''

Assim, a lenta e complexa passagem da ditadura para a democracia não foi fácil. E se o PMDB errou, foi por não ter explicado com maior nitidez, a natureza e as contradições da transição, mas não fugiu à responsabilidade. Foi fiel ao compromisso de levar até o fim este processo liderando a elaboração da nova Carta.

A incompreensão é, entretanto, verdadeira. Boa parcela da população confunde o PMDB com o governo Sarney e, equivocadamente, considera este partido o responsável pelo atual estado dos indicadores sociais do Brasil, pois na verdade foi, sem nunca ter sido.

A Presidência da República é o núcleo do poder. É a responsável por executar as reformas que a Nação precisa. O PMDB participou e participa do governo, mas sua influência nas decisões foi sempre decrescente.

O partido honrou seu compromisso com a democracia, foi fiel ao seu programa, nunca agiu de má-fé nem traiu os interesses da população. Ao contrário, é sempre atingido pelos fisiológicos que usufruíram os seus palanques e seus momentos de glória para garantir mandatos ou a continuidade deles e desembarcaram, sem cerimônias, atirando pedras.

É necessário ter coragem para discutir e assumir falhas. Os adesistas e oportunistas vêm de outra origem e têm outros endereços, pois aceitamos pagar um preço muito alto pela coerência e principalmente para assegurar na lei maior da República, a conquista da liberdade e da democracia.

Entendo legítima e necessária a candidatura própria do PMDB, sob pena de soçobrar o maior partido do Brasil. Este será o meu voto, como de todos os delegados do PMDB do Paraná e, se a coerência imperar, será a decisão soberana da Convenção Nacional do PMDB, que se realiza hoje.



- PAULO SALAMUNI é advogado, vereador do PMDB, líder da oposição na Câmara de Curitiba e delegado à convenção

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