Se teve a mão do homem, é cultura. O homem transforma, recria, designa novos usos, recicla, adapta, mas também mata. Natureza e cultura caminham juntas. Para fazer história, ter ‘‘civilização’’, é necessário interferir sobre o natural. Goiás Velho é (era?) um desses momentos felizes de aliança entre o patrimônio natural e o cultural.
Não por coincidência a paisagem tem fundamental identidade com o que emoldura: a cidade, a construção, o monumento, a coisa. Criador e criatura são íntimos. Goiás Velho, Ouro Preto, Lençóis (BA), Paraty, Fernando de Noronha, Pelourinho, Brasília são alguns exemplos vivos onde o construído precisa da rima com a natureza, feito, obra íntegra e integral.
Ver Goiás Velho derreter não é só um acidente natural. A natureza tem seus ciclos e veios sem consultar planilhas de técnicos, vaidades de gestões políticas, caprichos de novos ricos ou cobiça imobiliária. Cachoeiras mortas, rios sepultados, veios desconhecidos podem vir à tona quando há água suficiente para essa retomada. Como se o mar ‘‘decidisse’’ um dia recuperar o aterro (daí tanto espanto com ressacas cada ano maiores, óbvio: é a busca da praia original). A memória da Terra.
As nascentes do rio Vermelho em Goiás vêm sendo devastadas pelo fogo, desmatamento e descaso. A ocupação valorizada (virar Patrimônio da Humanidade, então, é um selo de classe chique) de áreas mais altas e urbanização sem a consciência profunda dos impactos no curso do rio, só podem gerar sobrecarga. Drenagem, mexidas em galerias internas (lembremos que houve a necessidade de aterrar toda a fiação para preencher um requisito da Unesco), lixo, perda de matas ciliares (a que fica em volta, como cílios nos olhos, dos rios), são fatores onde o natural termina por interferir no cultural.
Não há um estudo conclusivo, ainda, em Goiás Velho, sobre a relação entre os fatores culturais que interferem no natural. Não é por menos que se fala tanto em desenvolvimento sustentável: temos que mexer, mas sabendo quando, como e quais as chances reais de oferecer oportunidade para a natureza se reorganizar após a mexida. Uma equação de vida. Uma belíssima sinfonia de convivência onde cabem beleza e dor. Daí esse aperto no imaginário quando perdemos história, quando (expulsos do paraíso) nos apartamos da natureza. O poeta tem a paisagem. O patrão, latifúndio. A humanidade precisa do pão, mas não vive sem uma terra limpa. Goiás Velho vai ser reconstruída sem esquecer seus velhos cursos. A cultura dobra, mas a natureza cobra!
TT CATALÃO é jornalista em Brasília

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