A cada Copa do Mundo repete-se o espetáculo do patriotismo brasileiro e também se repete o discurso de que os cidadãos deveriam adotar idêntica postura com relação a todos os grandes momentos nacionais, sejam eles de alegria ou de situação adversa. Este dia fatídico de oitavas-de-final na Copa é outro daqueles em que a nação inteira se levanta e eleva o sentimento de brasilidade. Não se pode condenar esse estado emocional que toma conta de todos, porque esta é também uma forma de exaltar a pátria. É este o termo exato, porque não se trata propriamente do amor ao futebol porque a maioria compõe apenas a torcida de Copas do Mundo mas de uma impulsão que vem do fundo da alma de cada brasileiro. Muitos se emocionam não com a entrada em campo da seleção verde-amarela, mas ao ouvirem, em terras distantes, o Hino Nacional. Se é preciso cada um converter-se em torcedor também em outras grandes paradas, não tem sentido como alguns o fazem torcer contra a Seleção, como por vingança contra os milionários ganhos dos jogadores, contra o seu baixo desempenho em algumas ocasiões como aconteceu nos dois primeiros jogos ou contra a situação de desmandos governamentais e as misérias sociais que assolam o País. Tudo pode ocorrer a um só tempo, ou seja, torcer por vitórias brasileiras no futebol e também pelas outras causas de relevância nacional, quando necessário. É certo que a idêntica cobrança que agora se faz aos atletas patrícios em campo mesmo que, hoje, eles sejam na maioria ''cidadãos europeus'' deve ser feita aos governantes. Porque, se o Brasil é pentacampeão do mundo e pretende ser hexa nesta Copa, tambem ostenta muitos títulos pouco lisonjeiros, representados pela pobreza que envolve um numeroso contingente de concidadãos, e tantas outras mazelas, como o desemprego, a baixa qualidade da moradia e da saúde, a insegurança, a corrupção e a inoperância dos homens públicos. Mas não se pode culpar a euforia dominante destas semanas como a responsável pelas coisas desagradáveis que cercam este povo. A magia da união em torno de um ideal comum, manifestada pela presença da ''pátria em chuteiras'', deve ser sempre cultuada. E que dela se tire o exemplo de que, unidos, pode-se proferir um brado comum e tonitruante como o de um momento de gol também em outras grandes competições de natureza sócio-política. E elas estão aí, desafiadoras. A causa do futebol demonstra que se pode exercer a força de um ideal, a única capaz de grandes transformações. Se a maioria esmagadora da população está una neste momento histórico, então esta é a vontade soberana. Longe de condená-la (e por quem, senão por alguns poucos?) há que se observar mais atentamente o vigor dessa força e utilizá-la com mais frequência quando cada momento reclamar e assim colocar em campo toda a nação brasileira.

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