Em função da data - 8 de março, Dia Internacional da Mulher - e também porque o meu trabalho se desenvolve na área da Comunicação Social, ocorreu-me a idéia de tentar imaginar as diversas maneiras pelas quais a mídia homenageará a mulher nesta ocasião; e, desde logo, faço a ressalva de que isso não é ocupação meramente recreativa, destinada a preencher o meu ócio (até porque raramente encontro tempo para desfrutá-lo) ou simplesmente entreter os leitores. A mídia é sempre uma via de mão dupla: assim como age sobre a sociedade, como instrumento de informação e formadora de opinião, reflete essa mesma sociedade e é agida por ela - ou seja, espelha um estado das coisas, traduz as opiniões vigentes, faz eco tanto aos preconceitos e tabus persistentes quanto aos progressos verificados dentro de um processo de conscientização e mudanças. Sob este último aspecto, funciona como uma espécie de antena, e, no que diz respeito à mulher, convém prestar atenção ao que essa antena está captando.
Neste dia haverá quem, em prosa e verso, nos homenageie como seres meio sobrenaturais, escrevendo ou repetindo coisas como estas de Schiller: ‘‘ Elas (as mulheres) traçam e tecem/rosas celestiais para vida na terra;/ Traçam os laços beatíficos do amor,/e na graça dos véus de seu leve recato,/ com mãos abençoadas animam, vigilantes,/O fogo duradouro de belos sentimentos’’. Não menos arrebatados, outros nos exaltarão como esposas em mães; dirão como Anatole France que somos ‘‘a grande educadora do homem’’; louvarão a nossa dedicação, a nossa abnegação (ainda, é claro, que no restante do ano busquem parecer espirituosos falando das nossas supostas e proverbiais leviandade, inconstância, vaidade, tagarelice e capacidade de dissimular); e citarão exemplos grandiloquentes do nosso amor, das nossas virtudes (lembrarão da Julieta de Shakespeare, da Heloísa de Abelardo, da Madre Tereza de Calcutá, da Virgem Maria ou até de suas próprias mães). Isso farão - cada um a seu modo, com maior, ou menor ou nenhum talento - os cronistas, os colunistas (quando menos, encerrando o seu espaço com uma frase simpática e de efeito seguro, colhida em algum livro de citação), os poetas com trânsito nas redações, os apresentadores de tradicionais programas de rádio - e provavelmente o Faustão, o Ratinho, o Gugu Liberato (meu Deus, como o domingo na TV é pobre!) não esquecerão a data. (Arrisca até o ‘‘Fantástico’’ colocar o Cid Moreira recitando algum famoso poema sobre a mulher.)
Num outro nível, a TV e os jornais mostrarão reportagens sobre a crescente participação da mulher no mercado de trabalho, outras farão contraponto entre conquistas femininas e a maneira como a mulher ainda é tratada nas sociedades mais tradicionais e fechadas, as discriminações que ela (‘‘às vésperas do terceiro milênio’’) ainda sofre. Entrevistarão mulheres bem sucedidas (empresárias, administradoras, políticas), caminhoneiras, mulheres taxistas, pilotos de avião, metalúrgicas. Discutirão salários, assédio sexual nas empresas, a mulher na polícia, no exército, o seu peso na economia do País - e por aí vai.
Aqui e ali, entretanto, de modo explícito ou não, rondarão os aspectos ancestrais do tabu e do preconceito. Mesmo diante dos fatos mais positivos referentes aos programas alcançados pelas mulheres, haverá uma tendência a relativizá-los - em suma, diminuí-los com um ‘‘apesar de’’, um ‘‘mas’’, um ‘‘porém’’, que lhes servirão de contraponto negativo ( e não pense que apenas os homens farão isso).
Se forem apresentados números como aqueles que a ‘‘Veja’’ trouxe em sua edição do último dia 25 de fevereiro (‘‘O fim do feudo masculino’’, págs. 46 a 52), indicando, por exemplo, que a participação das mulheres na população economicamente ativa em São Paulo cresceu de 30% em 1993 para 50% no ano passado, que o número de vagas abertas pelas empresas nacionais sem exigência de sexo aumentou de 71% em 96 para 83% em 97, que 35% dos gerentes financeiros em atividade no país são mulheres, que o número de novas médicas inscritas no Conselho Regional de Medicina na capital paulista ampliou-se de 13% em 1970 para 44% em 97, que entre 85 e 95 dobrou o número das mulheres que ganham entre dois e três salários mínimos, bem como o das que ganham entre cinco e dez salários - se forem apresentados, repito, dados como estes, não serão poucos os que os rebaterão, pela ordem, com argumentos do tipo ‘‘o que vale para São Paulo não vale para o resto do país e, de qualquer modo, mesmo lá os melhores salários ainda são percebidos pela metade masculina’’; ‘‘ o fato de a quantidade de vagas sem a especificação de sexo ter aumentado não significa que as mulheres ocuparão a maioria delas’’; ‘‘dos 35% das gerentes financeiras em atividade, pouquíssimas o são de grandes empresas’’; ‘‘o crescimento do percentual de novas médicas inscritas no CRM da capital paulista não significa que elas terão melhores chances de colocação no mercado, nem que ocuparão os cargos mais rentáveis ou figurarão no rol das grandes especialistas, etc.’; ‘‘ pouco importa se o número das mulheres que ganham entre dois e três salários e o das que ganham entre cinco e dez dobrou em 10 anos, pois, se isso é expressivo em termos percentuais, ainda não o é em termos numéricos’’. Por outro lado, se eu lembrar que, aqui no Paraná, temos uma vice-governadora, 11 prefeitas, 20 vice-prefeitas e 379 vereadoras, também não faltará quem objete que, no ‘‘bolo’’, tais números são pouco representativos.
O que coloco em questão aqui não é o fundo de verdade ou falsidade destes argumentos, e sim a manutenção de uma cegueira monumental, de cunho machista (cegueira que, infelizmente, ainda é transmissível a não poucas mulheres), no sentido de não querer ver ou não valorizar devidamente o que temos conquistado nas últimas décadas neste País. Não se trata, porém, de cegueira (ou que outro nome se lhe queira dar) do tipo irreversível. Pode até ser crônica, mas não é incurável. Simplesmente, já não podemos ser ignoradas. Mas, é claro, ainda estamos na fase em que os nossos avanços causam surpresa e mesmo espanto. Estes efeitos, segundo creio, serão buscados pela maioria dos enfoques que, em nosso País, a mulher merecerá neste dia consagrado a todas as mulheres do mundo.
O próximo passo - decisivo e que os meios de comunicação de massa certamente refletirão - será a assunção de uma postura mais condizente com o que já conquistamos e, sem dúvida alguma, iremos conquistar, ou seja, é mais do que hora de abandonar o papel de vítima lamentosa de discriminação, dos preconceitos masculinos. A hora - e esta será atitude mais positiva - é de nos convencermos, de uma vez por todas, de que somos extremamente capazes de superar quaisquer obstáculos (disso temos dado mostras todos os dias) e, mais ainda, que somos fundamentais, imprescindíveis para a riqueza e o progresso deste País, em todas as acepções materiais e espirituais que as palavras ‘‘riqueza’’ e ‘‘ progresso’’ possam ter. Diante deste último fato, qualquer tentativa de relativização é fraude, má-fé, estupidez.

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