A mulher e o homem
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de março de 1997
Nitis Jacon 
Discutíamos, recentemente, sobre as cristalizações culturais no universo genérico feminino. As Novas Cartas Portuguesas, das Três Marias, obra-prima no assunto, narram a trajetória de medo, angústia, silêncio e guerra com que a mulher tece a trama da sua libertação. A argila endurecida pelo tempo e pela solidão, que constrange em conformismo ou em submissão o desejo e a esperança.
Ilude-se quem, na leitura desatenta do livro, estaciona no seu limite horizontal e reduz o universo feminino de que ele trata ao aspecto amoroso das legendárias cartas portuguesas, de autor desconhecido.
Me negaram até minhas cinco cartas, ignoradas primeiro, atribuídas depois a escritor famoso, que cartas de mulher no exercício de sua paixão ninguém acredita... que ofício tão elevado não o pode exercer uma mulher, nem por fêmea consentida. Minhas cartas, como eu mesma, como a minha paixão, percorrem o tempo como vampiro condenado eternamente à vida sem usufruto dos seus sentidos... (Barba Azul-Proteu))
Da mesma forma, equivocam-se aqueles que, no discurso cristalizado da luta feminista pelos direitos da mulher, tratam o tema pelo padrão da lógica masculina. É surpreendente observar que a mulher, muitas vezes, adota o estilo, o jogo da dominação, a comiseração, o mito da igualdade, enfim, o discurso masculino de uma sociedade competitiva e agressiva em que a mulher teria que assumir os mesmos valores para igualar-se ao homem.
Com que frequência constatamos que a mulher, ao libertar-se, persevera nos mesmos equívocos da imposição de padrões de comportamento, de sectarismo e de intolerância que tantos males ocasionaram à humanidade. E que boa aluna ela pode ser... no entanto, se avaliarmos a gênese e a história da humanidade, vamos compreender que a essência do feminino tem sido o útero/matriz que recebe, gera e nutre, enquanto o homem tem sido a espada que fere, até para defender, e cria as guerras (ver O Cálice e a Espada, de Riane Eisler).
Depois da radicalização compreensível, justificada e até necessária dos anos 50, chegamos ao final do século e a mulher se despe da androginia que acompanhava sua estratégia. Entretanto, que não se mude apenas a pele, a vestimenta exterior. Há que buscar a diferença dentro da complexidade do caráter feminino. Transformar o modo de reger e reconstruir o mundo em novas bases. Não apenas parceirizar, com o mesmo salário, um projeto inglório.
Podemos fazer muito mais que equiparar-nos à inteligência e à capacidade dos homens. Eles devem aprender o que, durante tantos séculos e até milênios, abdicamos de exercer. Se o útero, a menstruação, a tensão pré-menstrual, as lidas com a criação dos filhos, representaram um fator de marginalização das potencialidades da mulher, na realidade representam hoje a parte talvez mais importante do nosso patrimônio histórico, social e cultural.
Não reivindicamos a igualdade de coisas que não são gêmeas, são complementares. Se nos organizamos e conquistamos direitos coletivos a espaços e bens que nos eram negados ou proibidos, façamos deles o argumento e o instrumento da nossa individualidade e da nossa diversidade.


