Londrina está completando 80 anos e o seu destino ainda paira na fragilidade de seus administradores, que se deixam influenciar por interesses particulares. A justificativa é sempre a mesma: tornar ágil as ações da máquina pública. Para isso, a Prefeitura de Londrina realiza audiências públicas, propondo a flexibilização das leis que regem o uso e a ocupação do solo urbano da nossa cidade. Entretanto, em qualquer processo evolutivo esse procedimento deveria ser invertido, ou seja, se desejamos uma cidade planejada e organizada, essas leis deveriam ser cada vez mais rígidas e as mudanças deveriam se restringir apenas ao comportamento de seus dirigentes.
Há aproximadamente 55 anos, no auge da cafeicultura, muitos aportaram em Londrina em busca da independência financeira e, muitas vezes, os interesses do bem coletivo, por exemplo, o planejamento urbano da cidade, ficaram em plano inferior ou até esquecidos. Vale lembrar que a "explosão" da cafeicultura provocou um fenômeno de proporções gigantescas na cidade, pois num intervalo de aproximado de 15 anos a área de ocupação urbana da cidade se expandiu em torno de cinco vezes. Hoje o crescimento urbano é bem mais lento e, infelizmente, a tendência predadora da época parece ainda estar presente nas ações dos que têm o poder político na cidade. Como se o tempo estivesse parado ou regredido. No tempo que passou, de uma forma ou de outra, muitos conseguiram atingir ou aproximar a meta do acúmulo do capital financeiro, mas a busca ou acúmulo do capital cultural parece ainda ser uma meta desprezível para muitos dirigentes públicos. Por isso, quando se trata do cumprimento das leis em prol de uma cidade planejada e com um futuro organizado, tudo parece voltar ao tempo em que apenas o lado econômico interessava e o caminho mais fácil parece ser o mesmo: a mudança das leis.
As flexibilizações das leis, principalmente as que envolvem o planejamento urbano, sempre têm como objetivo principal, segundo os seus autores, o "destravamento" das ações da máquina pública em benefício do desenvolvimento. Entretanto, os favorecidos sempre são os mesmos: os detentores do poder econômico que buscam cada vez mais facilidades para a execução de seus projetos ambiciosos, lucrativos e autoritários. Se estes esquecem, ignoram ou desprezam o destino ordenado da cidade, o poder público municipal jamais poderá ter esse comportamento oportunista, irresponsável e predador. Para isso, ao contrário dos que buscam facilidades, o poder público deverá cada vez mais procurar a manutenção da rigidez da lei e o seu respectivo cumprimento. Um dos caminhos mais fáceis numa administração pública é procurar não desagradar os poderosos. Entretanto, essa facilidade aparente e oportunista de governar sempre provoca o descrédito da população em relação aos administradores públicos, sem contar os sérios transtornos futuros à cidade. Priorizar o bem-estar social, proteger a vida humana e planejar o futuro com um ambiente equilibrado às próximas gerações é o papel mínimo dos administradores públicos.
O descumprimento ou a flexibilização das leis de uso e ocupação do solo pelo poder público não surtem os efeitos danosos imediatamente. Somente anos mais tarde a população pagará pelas suas consequências desastrosas, sem perceber a origem tendenciosa. Depois de anos de desastrosas administrações municipais, já passou a hora de tomar atitudes corajosas, dignas de autênticos representantes do povo, que realmente façam todos cumprirem as mesmas leis. Só assim teremos uma cidade cuja população respeita e se preocupa com o seu território, pois se sente respeitada pelos seus governantes.

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