No ano passado, participando de reunião ordinária da Associação Paranaense de Engenheiros de Segurança, um dos diretores da entidade já colocava sua preocupação com os acidentes fatais que vinham ocorrendo no canteiro de obras da Audi/Volkswagen, em São José dos Pinhais. E justamente ao apagar das luzes de 1998, em 31 de dezembro, a família do motorista Joel Ribeiro Borges passou o Ano-Novo chorando a sua morte. Um acidente de trabalho matou-o aos 30 anos de idade.
Bem, não existe morte sem que exista um conjunto de situações negligenciadas no que diz respeito à segurança do trabalho. O trabalhador que perdeu a vida operava um caminhão-bomba da Supermix, empresa que prestava serviço à Construtora Walter Torres Júnior, de São Paulo, uma das 25 empreiteiras licenciadas para as obras da Audi. Joel Ribeiro Borges morreu porque não desligaram a chave-geral no momento em que fazia a concretagem de um barracão. O guindaste do veículo encostou nos fios de alta tensão e o trabalhador recebeu uma descarga elétrica de 13.800 volts. Por muito pouco outro colega de trabalho não morria junto.
Este é o fato, noticiado pela imprensa. Para o coordenador dos trabalhos da Construtora Walter Torres Júnior, no canteiro da Audi, o engenheiro Francisco Caçador, o acidente foi uma ‘‘grande fatalidade’’ e o desligamento da chave deveria ter sido pedido pela vítima. Ainda segundo o engenheiro da Construtora, no momento do acidente havia um técnico de segurança e engenheiro na área, mas não estavam no local em que ele ocorreu.
Não foi mera fatalidade, mas sim um conjunto de falhas no processo de produção. Não sei quem se deseja enganar. Não foi a primeira morte. Em um ano, pelo menos oito trabalhadores perderam a vida nos canteiros de obras da Audi e tantos outros se acidentaram com menor gravidade. Diante de tantas vítimas, é preciso analisar com profundidade para que se inicie um trabalho de prevenção para interromper este processo de risco para a vida do cidadão que sai de casa para trabalhar e pode voltar machucado ou pior, nem voltar, como foi o caso destes oito homens.
O engenheiro da construtora que opera na Audi disse ainda que, para evitar mortes como a do trabalhador Joel, seria necessário um profissional prevencionista para cada empregado. A afirmação é leviana e, no mínimo, uma provocação. Com certeza, um desrespeito em relação a todos os trabalhadores que têm no trabalho um meio de vida e não de morte. É também, tal declaração, um atestado de incompetência aos profissionais que trabalham com a prevenção de acidentes no canteiro de obras. O que fizeram com os preceitos que devem ser aplicados nos processos de produção, em particular na construção civil?
Infelizmente, tragédias como a que a família do trabalhador Joel está enfrentando não são ‘‘privilégio’’ do Paraná. Os últimos dados do Ministério da Previdência para o ano de 1997 apontam 306.709 acidentes de trabalho dentro das empresas, em todo o País, um universo restrito aos casos que chegam àquele órgão. Por conta destes acidentes, no mesmo ano o ministério gastou R$ 1,4 bilhão com indenizações. Para as empresas, os custos indiretos são em geral quatro vezes superiores, chegando então a R$ 5,8 bilhões. Naquele mesmo ano, quase 17 mil pessoas ficaram incapacitadas para sempre em função de um acidente de trabalho. Outras 2.694 morreram.
Os números são assustadores quando a prevenção por parte das empresas sai muito mais em conta do que arcar com ônus do empregado ‘‘encostado’’ da indenização ou das ações trabalhistas, cíveis e criminais. É mais barato investir em equipamentos de segurança e mais humano do que apostar na sorte e jogar com a integridade física e a vida do trabalhador.
No caso da Construtora Walter Torres Júnior, o procurador do Trabalho no Paraná, Renato Camargo Bigarelli, pediu à Delegacia Regional do Trabalho o embargo do canteiro de obras da empresa no pátio da Audi. O que veio acontecer por determinação do delegado Tércio Alves Albuquerque. Esta medida reforça o que colocamos no aspecto custo-benefício em relação à prevenção de acidentes de trabalho que as empresas deveriam levar em conta. Se não pela preocupação social, que se faça pela questão financeira. De um jeito ou de outro, empregado e patrão saem ganhando.
- CEZAR BENOLIEL é engenheiro em Curitiba

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