A morte do herói que Israel esperava
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terça-feira, 04 de fevereiro de 2003
Abraham Shapiro 
No momento em que o ''Columbia'' entrou no espaço terrestre, das casas de 75 por cento da população, a parte secular, ouviam-se saudações de todos os tipos. Os ortodoxos estavam cortados do mundo. Era Shabat, o sétimo dia, o mais sagrado, o dia de descanso do Senhor. Segundos depois também eles sabiam que ele estava voltando. Em cada bairro onde residem os religiosos sempre há quem não seja praticante ou um não judeu. O país inteiro concentrava-se na aventura do herói. Dizia preces de agradecimento.
Ilan Ramon tinha tudo para simbolizar esperanças de dias melhores. Era filho de sobreviventes dos campos de concentração nazistas da II Guerra Mundial. Da primeira geração de construtores do então, há 54 anos, recentemente re-proclamado estado judeu. Soldado. Piloto de guerra. Participara das guerras do Iom Kipur, de 1973, do Líbano, em 1981. Fora do pequeno grupo que bombardeara o reator nuclear do Iraque, em 1982. Era relativamente jovem. 48 anos. Casado, com filhos. Tinha um doutorado em ciências. As perfeitas condições físicas para a missão para a qual partira com otimismo.
Era de família secular, não praticante. Mas levara dois símbolos do judaísmo. O que se chama de ''mezuzá'', um sinal na porta de todos os judeus. Lembrança daquele que fora colocado no mesmo lugar, nas habitações dos judeus que eram escravos no Egito e foram levados à liberdade pela liderança do profeta Moisés, há milhares de anos. E nele se escreve ''Escute, ó Israel, Deus é um só''.
O de Ilan tinha gravadas uma estrela de Davi e pedaços de arame farpado como se usava nos campos de extermínio nazistas. O de Ilan fora criado pela artista californiana, Aimee Golant, também filha de sobreviventes, a pedido dele, para recordar o passado e os seis milhões de judeus mortos então. E acrescentara: ''Para cuidar da terra e todos que nela habitam'', como escrito na Bíblia. E levou uma ''Torá'' onde se escreve à mão, em pergaminho, o Pentateuco, os livros que contêm a Lei que os judeus acreditam lhes foi revelada no Sinai.
Há décadas que Israel não tinha um herói por consenso nacional. Um símbolo de tudo que é sagrado e vive no consciente e inconsciente deste povo. Como ele explica sua sobrevivência desde a antiguidade remota. Um anacronismo na história dos povos. O túmulo e o local exato de desaparecimento de Moisés, o profeta, é desconhecido. A Lei, explicam os rabinos, não permite adorar a ninguém além de Jeová.
Haverá um túmulo de herói para Ilan. Mas haverá carência dele vivo num momento em que o país convive com a hipótese de ser alvo das piores armas criadas pelo homem. E todas as crianças já sabem o que pode acontecer e como se comportarem. Para o mundo a morte dos astronautas foi mais uma tragédia na conquista do espaço. Os místicos já procuram uma explicação para a morte de Ilan que foi uma luz que se apagou quando era necessária. Há luto na expressão de todos.
ABRAHAM SHAPIROé engenheiro industrial e consultor empresarial em Londrina


