Em agosto de 1982, na UEL, conheci aquele que seria um dos grandes amigos que a vida me deu: Guilherme Paccola. Paccola era (porque faleceu sexta feira passada, vitimado por um AVC) alto, magro, feio e muito inteligente. Extremamente inteligente. Sensível e grande bebedor, comia como se não houvesse outra refeição a fazer. Eu convivi com ele durante quase duas décadas. Me casei no início dos anos noventa e Paccola foi advogar no Rio de Janeiro, o que nos desaproximou...

O passamento já anunciado de Paccola, todavia, abre uma imensa ferida em minhas memórias felizes, impondo um luto mitigador de nossa história acadêmica, onde o joie de vivere gritava pela década feliz de convívio. Moramos juntos em república quando estudantes e, após nos mudarmos, seguimos amando a vida e um ao outro.

Lembro de instantes que a memória não deixa apagar, todos tangidos pela necessidade grandiosa da amizade que nos chamava à embates de bem viver, circunstanciados de nossa necessidade comum de buscar instantes felizes.

Paccola era absolutamente voltado a viver o momento e isso sempre me fez buscar essa alegria de viver que nele abundava. Intenso e de fácil trato, não conheci quem o desgostasse por um qualquer motivo.

Foi um irmão que a vida me deu. Todavia, a vida que dá é a vida que tira.

Estou vivenciando uma dor fabulosa. Nos últimos anos nos afastamos muito, a ponto de quase não nos falarmos. Ele em suas pelejas fluminenses, eu por aqui. A distância nos apartou, mas não mexeu nos meus sentimentos. Sempre amei Paccola feito um irmão e seu passamento mais que avivar memórias deslembradas, faz brotar em terra morta a ânsia pela vida que vem com a primavera, suposto que as memórias de nossos anos dourados se impõem, para além de qualquer hipótese fugidia de nosso desconvívio.

Lembranças moldam histórias, e elas me vêm em profusão, quer pelo reavivar de uma época feliz, quer pela insônia de nos afastar de quem gostamos. Fomos, por quase dez anos, inseparáveis.

Ele, Paccola, dava o tom de nossa miséria existencial, reclamando nada de hipóteses fugidias de seu passado, onde antagonizava com seus fantasmas a liberdade abusiva que o caracterizava.

Dentre tantas histórias não posso deslembrar duas. Em determinada ocasião, o cine Vila Rica lançou uma sessão à meia noite. Combinamos encaminhar algumas cervejas no bar do seu João (Alagoas, entre o bar do Carlão e um outro boteco que não me lembro bem) antes do filme. Cervejas (santa Skoll de Londrina) encaminhadas rumamos ao Vila Rica onde, ingressos à mão e na fila de entrada, encontramos Ana Paula que, sempre meiga, indagou: Paccola, o que você faz aqui?

Guilherme respondeu: vim para ficar na fila, uma hora dessas (23:50) é muito difícil encontrar uma boa fila em Londrina, mas já vou indo porque você descobriu meu fetiche. E se foi!

A outra eu não deslembro, mas acredito não poder contá-la aqui. Não que ela deponha contra Paccola (nada diminuiria Guilherme), mas penso que possa haver leitores sensíveis e Guilherme, definitivamente, não tinha filtro e era para maiores.

Paccola, todavia, segue sendo meu irmão, esteja na terra ou no céu. Aliás, uma pauta recorrente nossa era questionar a existência de um céu. Minha formação católica sempre aliviava o projeto agnóstico do meu amigo que, por mais e melhores argumentos, via de regra cedia quando eu lhe lembrava a benção de poder estar (aqui e agora) onde estávamos – quase sempre à mesa de um boteco.

A vida se nos valeu pelas grandiosas conversas jogadas ao acaso quando a noite era jovem, suposto que ao molhar as palavras, sobrelevava-se a volatização de quase todos os elementos contundentes, o que maleava a vida.

Paccola me apadrinhou o casamento, significando para os desencontros que a vida me permitiu, o parceiro das horas incertas. Sabe aquela coisa de meu amigo de fé meu irmão camarada, que o Roberto cantou? Então, Guilherme é meu irmão de fé, ainda que eu jamais tenha cantado a experiência única de ter repartido com ele meus anos dourados, pelas circunstâncias paridas no Perobal.

A morte de Guilherme é um golpe duro que a vida me dá, sobretudo pela condição atual de nossa existência, onde estamos buscando ter em lugar de ser.

Paccola sempre foi. Nunca deixou de ser.

Amigo extraordinário, espero que a terra lhe seja leve, suposto que seus desvarios sepultaram nossas angústias, ressignificando as querenças da vida, quase sempre diluídas em um copo americano.

Faz muita falta o Guilherme. Espero que ele esteja, agora, ladeando meu pai em uma mesa qualquer de um boteco lá no céu. Adeus amigo, valeu a imensa alegria de ter convivido com você. Eu te amo.

João dos Santos Gomes Filho, advogado

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