A morte de Guilherme Berro D’Água
Paccola era absolutamente voltado a viver o momento e isso sempre me fez buscar essa alegria de viver que nele abundava
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 02 de setembro de 2022
Paccola era absolutamente voltado a viver o momento e isso sempre me fez buscar essa alegria de viver que nele abundava
João dos Santos Gomes Filho 
Em agosto de 1982, na UEL, conheci aquele que seria um dos grandes amigos que a vida me deu: Guilherme Paccola. Paccola era (porque faleceu sexta feira passada, vitimado por um AVC) alto, magro, feio e muito inteligente. Extremamente inteligente. Sensível e grande bebedor, comia como se não houvesse outra refeição a fazer. Eu convivi com ele durante quase duas décadas. Me casei no início dos anos noventa e Paccola foi advogar no Rio de Janeiro, o que nos desaproximou...
O passamento já anunciado de Paccola, todavia, abre uma imensa ferida em minhas memórias felizes, impondo um luto mitigador de nossa história acadêmica, onde o joie de vivere gritava pela década feliz de convívio. Moramos juntos em república quando estudantes e, após nos mudarmos, seguimos amando a vida e um ao outro.
Lembro de instantes que a memória não deixa apagar, todos tangidos pela necessidade grandiosa da amizade que nos chamava à embates de bem viver, circunstanciados de nossa necessidade comum de buscar instantes felizes.
Paccola era absolutamente voltado a viver o momento e isso sempre me fez buscar essa alegria de viver que nele abundava. Intenso e de fácil trato, não conheci quem o desgostasse por um qualquer motivo.
Foi um irmão que a vida me deu. Todavia, a vida que dá é a vida que tira.
Estou vivenciando uma dor fabulosa. Nos últimos anos nos afastamos muito, a ponto de quase não nos falarmos. Ele em suas pelejas fluminenses, eu por aqui. A distância nos apartou, mas não mexeu nos meus sentimentos. Sempre amei Paccola feito um irmão e seu passamento mais que avivar memórias deslembradas, faz brotar em terra morta a ânsia pela vida que vem com a primavera, suposto que as memórias de nossos anos dourados se impõem, para além de qualquer hipótese fugidia de nosso desconvívio.
Lembranças moldam histórias, e elas me vêm em profusão, quer pelo reavivar de uma época feliz, quer pela insônia de nos afastar de quem gostamos. Fomos, por quase dez anos, inseparáveis.
Ele, Paccola, dava o tom de nossa miséria existencial, reclamando nada de hipóteses fugidias de seu passado, onde antagonizava com seus fantasmas a liberdade abusiva que o caracterizava.
Dentre tantas histórias não posso deslembrar duas. Em determinada ocasião, o cine Vila Rica lançou uma sessão à meia noite. Combinamos encaminhar algumas cervejas no bar do seu João (Alagoas, entre o bar do Carlão e um outro boteco que não me lembro bem) antes do filme. Cervejas (santa Skoll de Londrina) encaminhadas rumamos ao Vila Rica onde, ingressos à mão e na fila de entrada, encontramos Ana Paula que, sempre meiga, indagou: Paccola, o que você faz aqui?
Guilherme respondeu: vim para ficar na fila, uma hora dessas (23:50) é muito difícil encontrar uma boa fila em Londrina, mas já vou indo porque você descobriu meu fetiche. E se foi!
A outra eu não deslembro, mas acredito não poder contá-la aqui. Não que ela deponha contra Paccola (nada diminuiria Guilherme), mas penso que possa haver leitores sensíveis e Guilherme, definitivamente, não tinha filtro e era para maiores.
Paccola, todavia, segue sendo meu irmão, esteja na terra ou no céu. Aliás, uma pauta recorrente nossa era questionar a existência de um céu. Minha formação católica sempre aliviava o projeto agnóstico do meu amigo que, por mais e melhores argumentos, via de regra cedia quando eu lhe lembrava a benção de poder estar (aqui e agora) onde estávamos – quase sempre à mesa de um boteco.
A vida se nos valeu pelas grandiosas conversas jogadas ao acaso quando a noite era jovem, suposto que ao molhar as palavras, sobrelevava-se a volatização de quase todos os elementos contundentes, o que maleava a vida.
Paccola me apadrinhou o casamento, significando para os desencontros que a vida me permitiu, o parceiro das horas incertas. Sabe aquela coisa de meu amigo de fé meu irmão camarada, que o Roberto cantou? Então, Guilherme é meu irmão de fé, ainda que eu jamais tenha cantado a experiência única de ter repartido com ele meus anos dourados, pelas circunstâncias paridas no Perobal.
A morte de Guilherme é um golpe duro que a vida me dá, sobretudo pela condição atual de nossa existência, onde estamos buscando ter em lugar de ser.
Paccola sempre foi. Nunca deixou de ser.
Amigo extraordinário, espero que a terra lhe seja leve, suposto que seus desvarios sepultaram nossas angústias, ressignificando as querenças da vida, quase sempre diluídas em um copo americano.
Faz muita falta o Guilherme. Espero que ele esteja, agora, ladeando meu pai em uma mesa qualquer de um boteco lá no céu. Adeus amigo, valeu a imensa alegria de ter convivido com você. Eu te amo.
João dos Santos Gomes Filho, advogado


