A morte da CPMF e a escalada das ameaças
Seguindo os passos da caravana governamental, também o ministro Paulo Bernardo declara que o Governo precisa buscar mais receita depois da hecatombe encenada pela queda da CPMF. Ao menos ele menciona que é preciso diminuir gastos, embora não os especifique totalmente. Porque por gastos, que o bom senso recomenda cortar, entende-se os supérfluos, portanto dispensáveis. Ele aponta a diminuição das verbas dos deputados e isso foi como mexer em vespeiro. Bernardo declara que não há mágica que permita fugir dessa equação.
Mas a mágica é justamente diminuir o peso da máquina pública. Essa diminuição é possível, mas o que parece ser o grande empecilho é os governantes se decidirem a isso. Se a administração pública não consegue enxergar os ralos por onde escoa tanto dinheiro, e acha que diante do fim da CPMF será o dilúvio, deve-se então admitir que a razão perdeu sentido em Brasília. Os próprios R$ 35/40 bilhões anuais do imposto sobre as operações financeiras, com a rubrica do atendimento à saúde, nunca foram inteiramente destinados a esse fim, então não tem fundamento o sofisma (uma pregação falsa com aparência de verdadeira) de que o Sistema Único de Saúde será prejudicado.
A verdade é que se o Governo quer tanto dinheiro não é pela caridade de atender à causa social (saúde incluída) mas dar provimento às exigências do elevado custo do Governo, às barganhas que resultam em votos favoráveis, nos parlamentos, e às mordomias que beneficiam toda a comunidade que atua nos círculos do poder político. ''É uma escalada de ameaças'', declaram parlamentares da oposição - se é que oposição de fato existe ou é apenas manifestação circunstancial, segundo cada caso. As ameaças de fato existem. O presidente Lula, mais moderado em suas próprias palavras após a morte da CPMF, fala pela voz do ministro Guido Mantega, da Fazenda; de José Temporão, da Saúde; de Patrus Ananias, do Desenvolvimento Social; e agora também de Paulo Bernardo, do Planejamento.
Não há dúvida de que o golpe da chantagem está acontecendo, porque dinheiro da própria CPMF andou guardado no cofre do Tesouro, para fazer caixa, e - repita-se - nem toda a verba da CPMF foi canalizada para os serviços da saúde. Ou o SUS atenderia melhor, não pagaria tão mal a médicos e hospitais e atuaria com mais eficiência na causa da prevenção das doenças, que grassam de norte a sul deste país e causam tanto sofrimento e morte.
Baixar a carga do custo-Governo serviria mais à conta do custo-Brasil, aqui entendidas as necessidades sociais. O Governo nada em dinheiro porque nunca arrecadou tanto quanto agora. Por isso, todo o queixume e a ameaça de caos iminente na saúde são pura encenação e lágrima de crocodilo.





