A morte da Coca-Cola - J. Roberto Whitaker Penteado
A morte da Coca-Cola J. Roberto Whitaker Penteado Não estou falando da empresa uma das maiores multinacionais do mundo mas do produto. Há algum tempo venho tratando do assunto em particular, com meus alunos, ao discutir o tema Ciclo de Vida dos produtos. Como sabem os estudantes e os profissionais de marketing, os produtos como as pessoas nascem, vivem e morrem. Logo, todos os produtos existentes sem exceção um dia vão deixar de existir. Em particular como disse os alunos e eu temos concordado que Coca-Cola também vai morrer. Quando? Como foi outro ícone da cultura norte-americana, a revista Business Week, que veio a público (em sua edição de 28 de fevereiro) para anunciar que já se pode começar a prever o declínio e a morte do produto-símbolo de uma era, tanto da civilização americana como do marketing, sinto-me à vontade para discutir o assunto neste espaço. Nas análises, em aula, os argumentos pró-morte iminente da Coca-Cola têm a ver com os hábitos de consumo das novas gerações, pelo menos nos países mais desenvolvidos. Esses jovens adultos (20 a 30 anos, mais ou menos) são mais politicamente corretos do que nunca e ligadíssimos nas questões de saúde. Para suas cabeças, é complicado continuar aceitando como normal consumir um produto em cuja fabricação entram essencias e colorantes artificiais e, ainda mais açúcar, quase um veneno, gazeificado e que deve ser consumido muito gelado... A versão diet ou light leva aspartame, uma substância que está, há tempos, sob suspeitas. E é claro que, se um produto não renova seus consumidores, ao longo do tempo, acaba desaparecendo. A profecia não é pessoal e intransferível para a Coca-Cola. Ela é genérica, no sentido de que têm as horas contadas todos os refrigerantes gazeificados aromatizados e coloridos artificialmente. O pessoal do Guaraná Antarctica também deve ficar preocupado assim como da Pepsi, Schweppes etc. Ainda que alarmante, nada disso é novidade para a própria Coca-Cola. Business Week afirma que o novo executivo-mor da empresa, Douglas N. Daft, está preparado para dar uma enorme sacudida na empresa, nos quatro cantos do mundo, transformando-a, de vendedora de Coke e de outros produtos, para uma empresa líder no non-soda market. O que é esse mercado? Como o nome indica, é o mercado de bebidas refrescantes não-alcoólicas, não-gasosas e, provavelmente, isentas de aditivos químicos. Hoje, ele é composto por produtos tais como Gatorade (e suas cópias), águas minerais, chá/mates, sucos naturais mas certamente os avanços da tecnologia vão possibilitar a criação de novas bebidas ao mesmo tempo saudáveis e passíveis de serem fabricadas em massa. Mas a força do marketing de seu produto carro-chefe sempre foi tão extraordinária, que a Coca-Cola, de fato, nunca emplacou suas linhas secundárias e algumas delas, como Fruitopia foram verdadeiros fracassos. A reportagem de BW sugere que a ocupação dos espaços das gôndolas dos supermercados para essas linhas secundárias que a empresa conseguia com facilidade está sendo cada vez mais ameaçada por concorrentes internacionais como o Grupo Perrier e a Quaker e, claro, no Brasil a AmBev... Tudo isso parece lógico e claro. Mas é possível prever, para o Século 21, o desaparecimento do produto que foi praticamente sinonimo do marketing e da propaganda do Século 20? A resposta é como daquele chofer de táxi lusitano: Depende... Se as coisas caminharem depressa, é bem possível que sim. Ou, pelo menos, o produto irá começando a ocupar mercados marginais de terceiro e quarto mundos como já está acontecendo com os cigarros perdendo expressão na passarela do Primeiro Mundo. Pois é. Quando eu era garoto, os adultos chamavam-nos de geração Coca-Cola. Éramos modernos e irreverentes. É possível que tenhamos sido a primeira e a última geração a ter recebido tal apelido por esse motivo. - J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é professor e dirigente universitário no Rio de Janeiro





