A moralização de fachada de Sarney no Senado
''Tanta coisa acontecendo e vocês preocupados com isso.'' Palavras da senadora Roseana Sarney - do mesmo PMDB do pai, José Sarney, presidente do Senado pela terceira vez - ao ser acusada de usar cotas de suas passagens aéreas para levar do Maranhão a Brasília amigos e assessores, e hospedá-los em apartamentos oficiais, tudo por conta do povo. Sua ironia era dirigida à Procuradoria da República. Diante do gigantismo das farras públicas o custo disso pode não ser alto, mas a debochada reação de Roseana é bem uma amostragem de como certos políticos encaram os abusos que cometem.
Foram críticas contra prodigalidades da Casa que levaram Sarney a afastar 131 diretores do Senado. Medidas moralizadoras partindo de Sarney soam a galhofa, porque estas nunca foram uma preocupação do velho político, cuja família e seus prepostos são mandatários do Maranhão há quatro décadas. Todos sabem que aquele estado é um dos mais miseráveis do País.
''Tanta coisa acontecendo'', no dizer de Roseana, não deve ser o absurdo dos 6.500 funcionários do Senado para atender a 81 senadores, porque esta é uma conta que lhe passa despercebida, assim como também não figura nas preocupações desses parlamentares e nem do presidente da Casa. Demitir os 131 diretores não é nada diante daqueles mais de 6 mil funcionários, e anunciar o afastamento deles é apenas uma oportuna encenação de moralidade. E a anunciada reforma administrativa apregoada - com toda a certeza - não irá alterar muita coisa no sentido de economizar gastos, mas atenderá a questões pontuais que estão irritando alguns pares. Então, Sarney faz as necessárias acomodações e tudo fica como dantes. Nisto o habilidoso homem público é mestre. Em janeiro o Senado (e Sarney ainda não era presidente) pagou horas extras em pleno recesso parlamentar a 3.883 daqueles empregados, e se eles pouco fazem no tempo regulamentar e atropelam-se nos corredores, é uma afronta esse pagamento extra, em tal circunstância. Só mesmo no feudo governamental brasileiro.
Os agitos de moralização ocorrem não por espírito público mas porque o PT está pressionando, depois que perdeu as presidências da Câmara e do Senado e a presidência da Comissão de Infraestrutura, entregue a Fernando Collor, do PTB, e perdeu musculatura em tudo o mais. Em resumo, o que existe no âmbito dos poderes são contínuas denúncias e evidências de corrupção e desmandos, a ponto de informações de alguma medida moralizante converterem-se em notícia.
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