A moralidade do presidente Bolsonaro
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quinta-feira, 01 de agosto de 2019
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Depois das declarações sobre a morte de Fernando Santa Cruz, pai do presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz, muitas vozes se insurgiram contra Bolsonaro acusando-o de carecer de empatia. Na minha opinião, o tom da crítica ética a Bolsonaro não está certo.
Embora veja sempre com bons olhos certas iniciativas, a meu ver autenticamente liberais de seu governo (por exemplo, a MP da liberdade econômica), não tenho motivos para apreciar as qualidades éticas do caráter de Bolsonaro. Preferiria ouvir declarações outras sobre quem é seu herói e sobre o sofrimento de seus adversários políticos. Não obstante, não o considero um psicopata, um monstro ético. Penso que ele é, na generalidade de seus atos e de suas opiniões, um ser humano como nós, nem santo, nem monstro. Para qualquer mente que não esteja contaminada pelo veneno das pelejas políticas e ideológicas, Bolsonaro é um ser de uma agressividade verbal excessiva. Mas nem por isso o considero um ser abominável como querem muitos.
Assim como a maioria das pessoas, Bolsonaro é um ser moralmente medíocre. E uso aqui a palavra medíocre num sentido mais estrito, isto é, no significado de médio, comum, mediano. Quero dizer, ele é, como nós em geral somos, insisto nesse ponto, repleto de defeitos éticos. Alguns os têm mais, outros menos, mas sem afundamento nos extremos da santidade ou da monstruosidade ética. Penso que ele, por temperamento e por formação, sempre acentua os elementos de confronto na vida política e isso se reflete na profusão de atos verbais incontinentes.
A admissão da inexistência de diferenças extremas entre os caracteres, salvo pessoas com traços psicopáticos dominantes, pessoas que nada possuem ou possuem o mínimo de empatia, não redunda no embargo à censura ética. Devemos sim censurar Bolsonaro, não apenas eticamente, mas também, e sobretudo, politicamente, reclamando dele um comportamento mais decoroso. Isso, contudo, não deve implicar a condenação ética dele, um juízo conclusivo sobre sua índole ética. Todos os seres humanos são eticamente censuráveis em alguma ação pontual ou quando as piores emoções tomam as rédeas do comportamento.
O discurso acentuadamente moralizante, que em tudo vê deformidade ética, deveria ser temperado não só com o reconhecimento da fragilidade humana, mas com a constatação de que até agora não temos conhecimento de que o presidente é autor de um grave crime que teria maculado para sempre suas qualidades éticas. Sim, acredito que Bolsonaro tenha qualidades éticas. Por acaso conhecemos Bolsonaro como o conhecem seus filhos, seus amigos, sua mulher? Conhecemos Bolsonaro como o conhecem as pessoas com quem ele se relaciona no dia a dia? Eu não o conheço com essa profundidade.
Em casos como esse, em que tratamos de figuras públicas, a crítica política parece-me sempre mais adequada que a crítica ética. Porque as pessoas que criticam o comportamento de Bolsonaro não são eticamente tão diferentes dele. São, porém, certamente diferentes quanto à responsabilidade política para com o país. E é nesse caso que as palavras de Bolsonaro merecem impiedosa reprimenda.
AGUINALDO PAVÃO, doutor em Filosofia pela Unicamp e professor de Filosofia na UEL


