À MODA ANTIGA Pais modernos 'terceirizam' para a mídia informações sobre sexo
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de dezembro de 2002
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Televisão, rádio, revistas, jornais, internet. Os jovens que vivem neste começo de século são bombardeados por informações que vêm de todo canto, o tempo todo. Mesmo quando estas informações não chegam, eles vão atrás. Mas a facilidade e rapidez na transmissão de dados não garantem que todos estejam bem informados, principalmente no que diz respeito às questões relacionadas a comportamento e sexualidade justamente as que despertam mais curiosidade entre os adolescentes.
Uma prova da falta de profundidade e de qualidade do conteúdo de grande parte das colunas de consulta divulgadas pelos grandes meios de comunicação hoje em dia é a publicação que a Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI) acaba de lançar. O livro ''A Mídia Como Consultório? uma análise técnica e jornalística das perguntas e respostas sobre saúde e comportamento veiculadas pela mídia impressa e eletrônica'' é resultado de um exaustivo trabalho feito em conjunto com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), ONG Central de Projetos, Associação Brasileira de Adolescência (Asbra) e Coordenação Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde, com apoio da Unesco.
Em 87 páginas, a publicação aborda, entre outros assuntos, problemas de produção/edição das colunas de consulta, como respostas inadequadas ou preconceituosas; traz levantamento sobre o público que mais procura a mídia para esclarecer suas dúvidas e os profissionais mais procurados para respondê-las; exibe o ranking dos assuntos mais veiculados; faz uma análise dos pontos positivos e negativos exibidos nas respostas; traz informações sobre a legislação envolvendo os adolescentes, além de relação de sites e serviços telefônicos onde podem ser respondidas as principais dúvidas. Em sua segunda parte, o livro sugere a utilização das colunas como material didático.
Um dado importante sobre as colunas de consulta é que 48% das dúvidas com idade identificada são de adolescentes de 13 a 17 anos. Além disso, 65,1% dos remetentes cujo sexo é identificável são mulheres. O hebeatra (médico especialista em adolescência) londrinense Walter Marcondes Filho, presidente da Asbra e um dos consultores da ANDI para a elaboração do livro, lembra que as colunas de consulta são antigas. ''Mesmo assim, para mim foi uma grande surpresa saber que jovens do Brasil inteiro escrevem para os veículos de comunicação para esclarecer suas dúvidas.''
Outra surpresa, segundo o médico, foi o grande número de respostas dadas por pessoas que não são especialistas, a não indicação de serviços e ''o número absurdo de respostas incorretas, incompletas, inadequadas e desrespeitosas''. Para Marcondes que integra a equipe de profissionais do Centro de Referência do Atendimento ao Adolescente de Londrina (Craal) ®MDNM¯ quase sempre perde-se a oportunidade de falar nas formas de prevenção e promoção da saúde, duas das grandes preocupações dos órgãos que trabalham com jovens.
O médico aponta um problema que pode explicar, em parte, a origem do número cada vez maior de adolescentes que recorrem às colunas de consulta. ''A educação deve ser feita dentro de casa, mas os pais, por falta de tempo, falta de informação ou falta de disponibilidade, estão terceirizando essa função para as escolas.''
O fato não geraria tanta preocupação se as escolas estivessem melhor preparadas para responder aos questionamentos dos jovens. ''Bem poucas escolas se capacitaram para a educação sexual. A questão exige preparo, isenção, imparcialidade e muita ética. Questões morais e religiosas, por exemplo, não devem interferir'', diz Marcondes.
Na opinião do hebeatra, o adolescente brasileiro não vem recebendo a devida atenção, o que para ele é uma forma de violência. ''A imprensa, o governo e a sociedade em geral não cuidam do adolescente como se deve. Não existem políticas públicas que visem o seu bem-estar'', critica.
No levantamento feito pela ANDI com 708 alunos do ensino médio e fundamental de escolas públicas e particulares da grande São Paulo, detectou-se que 30,7% dos adolescentes procuraram as colunas dos veículos de comunicação por timidez e/ou vergonha de perguntar as dúvidas aos pais. Cerca de 8% afirmaram procurar as colunas devido à dificuldade em conseguir atendimento médico. Dados como estes confirmam o grave problema da falta de assistência médica específica para os jovens.


