A mitológica revolução latino-americana
Maria Lucia Victor Barbosa
Conforme noticiado esta semana, o presidente do Peru Alberto Fujimori logrou capturar Oscar Ramírez Durand, conhecido como Camarada Feliciano. Ele ocupava o lugar de líder do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso depois que seu fundador, ideólogo e líder máximo, o professor de sociologia e filosofia Abimael Guzmán, foi preso em setembro de 1992.
Note-se que o Sendero Luminoso foi criado em meados de 70 na Universidade de San Marcos, em Lima, mas o movimento que nasceu no meio intelectualizado tornou-se o grupo de esquerda mais cruel e sanguinário do Hemisfério Ocidental. De maio de 1980 em diante, a guerrilha de inspiração maoísta declarou-se em luta contra o Estado peruano, desencadeando a onda de violência que ao longo do tempo já contabilizou aproximadamente mais de 30 mil mortes.
Inicialmente os senderistas diziam dar proteção aos camponeses que cultivavam coca. Depois estes se tornaram vítimas do Sendero, assim como os imigrantes pobres e a baixa classe média nas cidades e na capital. Portanto, foram os ‘‘oprimidos’’ para os quais teoricamente se destinava a revolução, e não os ricos, que sofreram nas mãos dos seus supostos salvadores.
Elogiado pelos que vêem nos seus atos o cumprimento da promessa de dar combate à subversão, criticado por aqueles que o acusam de posturas ditatoriais, Fujimori, que participou pessoalmente do ato final da captura de Durand, disse: ‘‘Essa ocasião marca o fim do Sendero Luminoso. O grupo está agora sem liderança, embora haja resíduos’’.
Com relação ao Peru, certamente Fujimori tem razão. Por outro lado, o Sendero exportou guerrilha e possui franquia. A franquia no Brasil é encarnada pela Liga Operária e Camponesa (LOC), que cultua a ‘‘quarta espada do marxismo’’, ou seja, Abimael Guzmán. Aliás, os integrantes da LOC não fazem segredo disto, sendo que o tema foi noticiado abertamente pela imprensa.
Quanto ao Movimento dos Sem Terra (MST), seus líderes sempre negaram qualquer ligação com organizações deste tipo. Aliás, são treinados para simular passividade, heroísmo, bondade, desprendimento e bom humor, a fim de conquistar a opinião pública. Entretanto, há uma grande coincidência entre a ideologia (marxista), o tipo de luta (contra o Estado), e os métodos (terroristas) do MST e outras organizações de esquerda da América Latina. Observe-se, inclusive, que a base de apoio popular do MST é centrada no campo, estendendo-se, porém, em direção aos ‘‘oprimidos’’ das cidades.
Para culminar, entram agora em cena no Brasil as universidades, onde alguns professores e alunos funcionam como treinadores ideológicos do MST. A diferença é que no Peru o Sendero nasceu dentro da universidade, e aqui o MST surgiu primeiro como criação de partidos de esquerda e de setores da Igreja para depois chegar à universidade.
Aliás, o MST cuidou primeiro das crianças, que nos acampamentos são devidamente ‘‘escolarizadas’’ em cursinhos de doutrinação. Mas agora é recebido na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Neste mês, durante 12 dias, professores de História da Unicamp, jornalistas e figuras conhecidas como Leonardo Boff, frei Beto e João Stédile, dedicaram-se a ministrar curso de Realidade Brasileira para Jovens do Meio Rural, ou seja do MST. Assim, uma universidade estadual abriu as portas para um movimento que é contra o Estado, cedendo inclusive alojamento e abrindo o restaurante durante o período de férias para recepcionar 1,2 mil sem-terra entre 15 e 25 anos.
Além da Unicamp, outras universidades já estão oferecendo ‘‘projetos de extensão’’ ao MST. Significativamente, os sistemas totalitários, tanto o nazista quanto o comunista, utilizaram a lavagem cerebral em receptivas mentes jovens para levar adiante seus mitos revolucionários.
Explicar o mito das revoluções na América Latina exige o espaço de um livro e não de um artigo, e de certo modo já fiz isso no meu livro ‘‘América Latina - em Busca do Paraíso Perdido’’. Em todo caso, pode-se dizer sinteticamente que, diferente dos Estados Unidos, a América Latina, pela formação histórica que culminou em suas sociedades desiguais, foi utilizada como campo propício para movimentos ditos revolucionários, os quais tentam na verdade contemplar caudilhescas ambições de poder. As diferenças se deram a partir do tipo de colonização havido, pois como bem explicou Carlos Rangel, os colonizadores anglo-saxões vieram em busca de terras e de liberdade, enquanto que portugueses e espanhóis chegaram em busca de ouro e escravos.
Contudo, o mundo latino-americano nunca fez parte das cogitações de Marx e Engels, que apostavam no desmoronamento do sistema capitalista nos países desenvolvidos de sua época. À medida, porém, que o tempo passava, o capitalismo não dava sinal de sucumbir. Em vez da pauperização progressiva, surgia na Europa da Revolução Industrial uma nova classe operária cujos salários reais não cessavam de aumentar. Enquanto isto, os Estados Unidos despontavam como potência mundial. Neste contexto, onde marxistas angustiados buscavam explicações para suas teorias falidas, surgiu o revisionismo de Hobson, de Hilferding e de Lenin, que propunha implantar o socialismo não nos países capitalistas adiantados, mas sim nos territórios colonizados ou sob sua dependência.
Hoje, com o desmoronamento do socialismo, os marxistas que sobraram se tornaram ainda mais perplexos. E na América Latina, campo privilegiado de quimeras utópicas, prossegue o revisionismo que estimula mitos revolucionários, não importando quanto sofrimento e atraso isto possa trazer. Nesse sentido, agiu corretamente Fujimori mais uma vez, enquanto no Brasil da impunidade, as franquias do Sendero agem à vontade sob o olhar complacente das autoridades. A continuar assim, seremos eternamente o país do futuro.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
E-mail: [email protected]

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