A miséria brasileira
A aparente preocupação com a miséria e a pobreza acaba unindo verdadeiros opostos, como ocorreu ontem, quando o presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães, participou de debate com o presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva. Ultimamente, o senador do PFL tem se mostrado muito preocupado com a miséria, apresentando inclusive pacotes alternativos para, conforme entende, oferecer possibilidades de mudança. A questão está no centro do Seminário Caminhos do Desenvolvimento e Combate à Pobreza, que começou em São Paulo, e que reúne, entre outras autoridades, o presidente do BNDES, Andrea Calabi, o deputado federal Aloízio Mercadante, do PT, e os economistas Paulo Rabelo de Castro e Luciano Coutinho, com a mediação do assessor do PT, Guido Mantega.
É inegável a importância do debate. É oportuna a preocupação e necessária a realização de um esforço para mudar esta realidade. Números recentemente revelados por entidades mundiais voltadas para os problemas da fome e da miséria indicam que a situação no Brasil melhorou um pouco nos últimos anos. Reduziu-se percentualmente o total dos que passam fome no país. Estes números, porém, estão muito longe de atingir um patamar no mínimo aceitável, já que a situação da miséria no Brasil é verdadeiramente assustadora.
Uma informação do jornal The New York Times pode servir para mostrar o estágio em que o Brasil se encontra no que diz respeito à pobreza. Segundo aquele jornal, a taxa de pobreza pode aumentar nos Estados Unidos de 12,7% para 17% em razão da possível revisão do limite de pobreza pelo Gabinete americano de Censo. Atualmente, este limite é fixado em uma renda de 16.600 dólares ao ano para uma família de quatro pessoas. O citado Gabinete pretende aumentar este limite para 19.500 dólares. Em termos gerais, isto significa que uma família de quatro pessoas, com renda abaixo de 1.625 dólares mensais, será classificada como pobre. Se este valor, considerado sem dúvida o mínimo para a sobrevivência familiar, fosse trazido para o Brasil, seguramente iria atingir muito mais do que a metade da população.
Com efeito, poucas famílias no Brasil vivem com mais do que cinco salários mínimos mensais, o que dá algo em torno de 350 dólares. A grande maioria vive mesmo na faixa do salário mínimo. E há os demais, aqueles que realmente são considerados miseráveis, os que sobrevivem em condições desumanas. Claro, é complicada a comparação entre Estados Unidos e Brasil. Todavia, é certo que existem algumas semelhanças: lá como cá, os seres humanos precisam comer para viver. E por pior que se viva, há um mínimo necessário para a sobrevivência digna. Talvez seja muito considerar 1.625 dólares por mês o mínimo necessário. Mas é certo que 136 reais por mês, o mínimo brasileiro, são insuficientes para manter uma pessoa.
Um interessante argumento a ser colocado ante os políticos que parecem estar tão preocupados com a miséria é o fato de que enquanto nos Estados Unidos uma família que ganha 19.500 dólares ao ano é considerada pobre, no Brasil quem ganha 40 mil anualmente paga imposto de renda! Principalmente se for assalariado. Na verdade, quem paga imposto no Brasil são exatamente os pobres, os desvalidos, os que arcam com todos os tributos em cascata que incidem sobre a economia. Já as instituições financeiras, os miliardários, os que têm ganhos imensos, inclusive na especulação, pagam pouco ou nada. Um bom começo na discussão para reduzir a miséria no Brasil poderia ser este: fazer com que os poucos muito ricos comecem a dar sua contribuição tributária para ajudar a imensa maioria, muito pobre.

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