A ''miopia'' tecnocrática
A miopia tecnocrática
Miguel Ignatios
O governo brasileiro costuma enxergar muito bem a árvore, mas nem sempre tem idéia muito clara da floresta globalizada, na qual o País quer entrar. Tal atitude repetida ao longo do tempo acabou por contaminar parte do empresariado. Essa é uma das conclusões que se pode tirar de recente pesquisa, publicada pela revista Veja, sobre empreendedores brasileiros, que venderam suas companhias para estrangeiros, ao longo dos últimos seis anos.
Há trinta anos, pensamos que somos empresários e não passamos de quitandeiros, resume o banqueiro e ex-prefeito de São Paulo, Olavo Setúbal, sem dúvida, uma autoridade no assunto. A frase é atribuída, diplomaticamente, na entrevista, a um providencial amigo, mas resume, à perfeição, a desinformação de boa parte do nosso empresariado em relação ao que se passa lá fora.
Deslumbrados, no paraíso tropical, abençoado por Deus, nosso governo e parte do empresariado necessitam, antes de se aventurar, na selva da globalização, de capacidade e acuidade, capazes de corrigir-lhes a desproporção e a real escala de valores entre as empresas daqui e as de fora. Eles vendem seu patrimônio feito pudim, ironiza Setúbal.
A miopia brasileira talvez tenha tido a sua origem nas frequentes ondas de ufanismo, divulgadas pelos órgãos de propaganda do Estado Novo, e reeditadas, mais recentemente, pelos governos militares, sempre, obviamente, com a finalidade de esconder os reais problemas do País.
No final da década de 70, sob a administração Ernesto Geisel, era comum a imprensa especializada trazer longas entrevistas com tecnocratas da área econômica, que achavam, ingenuamente, que o Brasil era tratado, por investidores institucionais e privados estrangeiros, de uma forma toda especial, pelo simples fato de o País ter uma dívida externa, calculada na época em US$ 100 bilhões.
Essa balela caiu no ridículo, quando a mídia relatou a surpresa de um participante de uma comitiva oficial brasileira, em visita ao Japão, ao saber que a Companhia do Metrô de Tóquio devia, para credores externos, exatos US$ 100 bilhões. Como o leitor pode deduzir, de lá para cá, pouca coisa mudou em termos de mentalidade.
Mas voltemos às informações veiculadas pela revista. Do total de empresários que venderam seus patrimônios, 62% (porcentagem bastante alta) não reinvestiram seu capital; só 18% deles resolveram aplicar 30% do que receberam em novos empreendimentos; e 20% deles tornaram-se empregados. Os motivos alegados para as aposentadorias precoces são conhecidos: as constantes mudanças adotadas pelo governo.
A leitura e a projeção desses dados para o futuro é, no mínimo, preocupante. Existem, no País, seis milhões de empresas, das quais apenas 50 mil são médias e grandes. O levantamento feito pela revista abrange apenas ex-proprietários de empresas incluídas neste grupo, que representa o topo da pirâmide empresarial. A dedução é óbvia: o ímpeto empreendedor do brasileiro está sendo, cada vez mais, confinado às atividades menores em importância e complexidade, fragilizando a Nação e prejudicando o desenvolvimento harmonioso da sociedade.
Que, ao menos, esses dados sirvam de alerta para o governo. Se nossos tecnocratas continuarem com a atual política obstinada de arrochar cada vez mais as empresas do setor produtivo, a classe média e os assalariados, em pouco tempo, não haverá mais o que taxar. Assim, a tendência de vender nossas empresas a preço de banana será interrompida. Pelo simples fato de que o governo terá acabado com elas antes.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)
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