Em tempos felizes, o eleitor brasileiro é um metafísico. Explico. Fernando Pessoa, um dos maiores poetas da nossa língua, diz no primeiro verso de um de seus poemas: ‘‘Há metafísica bastante em não pensar em nada.’’ E se há!
Depois de iludido com o canto da sereia, com os primeiros resultados do Plano Real, o povão ficou anestesiado com a fala mansa de Fernando Henrique Cardoso - mui amigo e conselheiro-mor de Deus. Ele chegou como o outro, o Collor. Fez pinta de bom moço, avançado, dinâmico, moderno e tudo o mais que os marqueteiros, estes bruxos do nosso século, conseguiram embutir nesta figura que até 20 dias atrás dizia governar o País. Tudo calmo e tranquilo, com dentadura nova e a possibilidade de se ter uma penosa inteirinha sobre a mesa, a galera resolveu realmente não pensar em nada. Ora, se o homem dizia que o País ía bem, com pequenos probleminhas que seriam resolvidos com o tempo, por que pensar? Para que ligar para a verborragia da oposição que estava morrendo de inveja do mago que conseguiu controlar a inflação escondendo sistematicamente o truque?
Quinta-feira, 4h30 da manhã, escrevo este artigo ouvindo o noticiário nacional da Rádio CBN, e ao abrir os jornais pela Internet verifico que as minhas suspeitas se confirmavam: Fernando Henrique já não governa o País, provavelmente nunca governou. No ‘‘O Globo’’ a notícia estava lá: ‘‘Banco Central eleva taxa de juros de 32,5% para 35,5%’’ - coisa pequena para quem já perdeu US$ 5,5 bilhões de reservas desde o último dia 12. Mas como desgraça pouca é bobagem, mais adiante a matéria informava que a medida do BC indicava uma tendência de alta nas taxas de juros de 1,5 ponto percentual por dia enquanto durar a crise. Mas o grave vem agora.
No terceiro parágrafo da notícia, o zeloso repórter garantia que uma fonte do governo havia confirmado que o BC agia desta forma seguindo uma ‘‘sugestão’’ do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do G-7 (grupo dos sete mais ricos países do mundo que participaram da vaquinha para emprestar os US$ 41,5 bilhões para o Brasil, em novembro passado). De repente caímos do colo de Morfeu. A Nação brasileira virou mesmo a casa-da-mãe-joana. Enquanto o povo vivia na mais pura metafísica, sonhando apenas no franguinho e nas quinquilharias das lojas de R$ 1,99, nossa soberania era safadamente vendida por Malan & Cia., para garantir mais quatro anos do suposto governo de FHC, agora títere declarado do FMI e do G-7.
O País está à deriva. Fernando Henrique não consegue nem mais controlar os criadores de galinhas! O franguinho, astro do Plano Real, teve o quilo de suas magras carnes majorado em 25% em menos de 15 dias, passou de R$ 0,60 para R$ 0,75. E pior, há a ameaça do consumidor não encontrar nem mesmo uma asinha da penosa nos balcões dos supermercados. O mesmo deve ocorrer com outros produtos básicos e a carne de vaca: o desabastecimento, diriam os economistas (boa parte deles, principalmente os do governo, deveria estar na Academia Brasileira de Letras, tal é a habilidade ao se inventar expressões novas para dizer que o povo está lascado).
O Carnaval está aí, com as metafísicas das mulatas, genitalhas desnudas e do reinado de Momo. Tempo ideal para não pensar em nada. O mundo do brasileiro desaba. E o homem lá, paradão. Que será que ele faz? Espera novas ordens do FMI ou do G-7? Pensa na morte da bezerra? Lembra-se do quanto foi feliz na pregação da mentira? Não, com certeza nosso rei que não governa está preparando mais um cínico discurso para anunciar na quarta-feira de cinzas o ‘‘Plano Real 2, a Missão’’, mas só que agora sem franguinho! O presidente FMI e seu vice, o G-7, estão convictos que pensar em nada e sem nada na barriga é o ideal para este povo que pensou um dia ser feliz.
- JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina

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