A mesmice e o gigante ''acaso''
Um sentimento de mesmice invade a alma nacional. A luta política, que se trava na arena do processo sucessório antecipado, é a teatralização de uma velha guerra que exibe perfis cansados, bordões gastos e quase nenhum elemento de diferenciação. O repertório de denúncias diárias, ao contrário do que seria de esperar, tem o efeito de anestesia social. A repetição cansativa de escândalos embrutece a sensibilidade, como se uma pesada camada de chumbo passasse a cobrir os nossos corpos. O governo federal até parece que está no fim da linha. É reativo, perdeu o comando da ação. Os governadores estaduais reeleitos mais se assemelham a dândis no baile que terminou por cansaço da orquestra. Emascularam a vontade. Os parlamentares correm pressurosos ao balcão das trocas, para saber qual a melhor moeda partidária a partir de 5 de outubro próximo.
A disputa sucessória, mais uma vez, está se transformando numa guerra de nomes sem grandeza. Os candidatos correm atrás de apoio dos partidos, menos em função de conceitos e programas, mais em função do tempo que poderão ganhar na mídia eleitoral. O governo passa a ser atacado de maneira contundente, transformando-se, com certa razão, no maior bode expiatório da crise. E nem pode berrar alto porque é refém de três barbáries que ameaçam a precária governabilidade: as barbáries tecnocrática, política e gerencial.
A barbárie tecnocrática é responsável pela imprevisibilidade e improvisação do governo, pela departamentalização da eficácia econômica e pelo desprezo ao cinturão político. A barbárie política tem sido responsável pela construção do balcão das trocas e pela fragilização da base econômica. E a barbárie gerencial, associada aos vícios anteriores, consiste em ignorar a eficiência e a eficácia organizacional como elementos complementares básicos do manejo político e econômico.
Fernando Henrique patrocina, em maior ou menor grau, cada pedaço dessas três barbáries. E o resultado aí está: a baixa capacidade de governo, o que comprova a tese muito difundida de que os dirigentes latino-americanos, apesar de qualidades pessoais, têm dificuldades de lidar com a complexidade do Governo. A pior gestão, dizem os estudiosos de política, é aquela que consome o capital político do governante sem alcançar os resultados anunciados e perseguidos e isso ocorre por mau manejo técnico. Os dirigentes esquecem os compromissos de suas campanhas eleitorais, não fazem o cálculo do balanço da gestão e, principalmente, não a projetam para o futuro.
Os políticos, por sua vez, aproveitam-se das circunstâncias para tirar proveito. A crise passa a ser oportunidade para aumentar o capital. O Parlamento Nacional se tornou um amplo confessionário de pecados, o que, convenhamos, faz certo bem ao País, contanto que não se deixem de lado a função legislativa, o debate sobre os problemas nacionais e a fiscalização dos atos do Executivo. Os governadores reeleitos estão desmotivados. Já deram o gás que tinham de dar, suas equipes deitam-se na cama do ócio, enquanto os círculos mais íntimos locupletam-se de benesses. Devem ceder o lugar para substitutos e quadros mais motivados. Afinal de contas, a reta final de uma administração precisa receber altas dosagens de oxigênio e vitaminas de energia.
A tecnocracia federal, essa também, precisa ser submetida a um forte impacto. Está anestesiada. Não sente o cheiro de povo, não ouve o grito rouco das ruas. Está hibernando numa densa e fria camada de gelo. Governo nenhum elege sucessor quando se descola do sentimento popular. Procurar a bússola perdida, caminhar na direção correta, processar com eficácia as ações, ter capacidade para gerenciar problemas e encontrar soluções, evitar fricções irreparáveis, entrar em regime de mutirão, buscar intensamente o foco essa é a alternativa que resta aos governantes. Só assim poderão despertar os sentimentos adormecidos da sociedade e gerar novas percepções.
De tanto olhar a escuridão, o olho se acostuma a olhar para o nada. E não percebe os vazios do ambiente. É mais ou menos assim o olhar dos governantes e políticos. Há imensos vazios no espaço social. Por isso, os eleitores estão distantes dos velhos atores que ensaiam no palco. Quem surgir encarnando a voz da autoridade, o dom do equilíbrio, as aspirações mais legítimas da população, a força moral, tem melhores condições de subir ao pódio.
Na Babel de linguagens tortuosas e bordões de promessas mirabolantes, quem vai dar o tom é a onomatopéia da indignação social. Por isso, não se deve confiar em prato feito. Muita água há de rolar carregando novas correntes. Como rugiu Zaratustra, o profeta de Nietzsche: Não apenas a razão dos milênios também a sua loucura rompe em nós. É perigoso ser herdeiro. Ainda lutamos, passo a passo, com o gigante chamado acaso.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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