Se os alimentos são o grupo que mais pesa no orçamento doméstico e também na composição dos índices do IPCA, principal aferidor da inflação, com toda certeza, a inflação real, de cada família, vai muito além daquela oficial, apontada ontem pelo governo (ver matéria no Caderno Economia). Mas o pior é que os preços continuam em ascensão. Não foi por acaso que o ministro Mantega, da Fazenda, chegou a sugerir, meses atrás, a mudança dos índices.

A notícia é a seguinte: a inflação oficial do governo atingiu em 2010 o maior patamar em seis anos. É o que mostrou ontem o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que subiu 5,91% no ano passado, acima do centro da meta estipulada pelo Banco Central (4,5%), e superior à taxa de 2009 (4,31%). Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que divulgou hoje o indicador, os alimentos foram responsáveis por 40% do IPCA em 2010.

O indicador mostrou ainda uma persistência inflacionária nos preços de serviços. Isso acendeu um sinal de alerta entre os analistas, que classificam como preocupante o cenário da inflação para 2011, e apostam em alta na taxa básica de juros (Selic), atualmente em 10,75%, na primeira reunião do Conselho de Política Monetária (Copom) do ano, em janeiro.

O IPCA é o índice oficial utilizado pelo BC para cumprir o regime de metas de inflação, determinado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). De novembro para dezembro de 2010, a taxa do indicador recuou de 0,83% para 0,63%, devido a uma menor pressão da inflação de alimentos e bebidas (de 2,22% para 1,32%). Mas o recuo na margem não melhorou o humor do mercado financeiro. Para os analistas, há um movimento de inércia inflacionária que pode ajudar a elevar o IPCA em 2011.

Há um complicador na composição dos preços: os não administrados. Na prática, a continuidade no aquecimento do consumo do mercado interno deve elevar os preços não administrados este ano, como serviços de manicure e oficina mecânica. Além disso, não há como prever os movimentos futuros dos preços dos alimentos, que podem continuar a subir em 2011.

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