Ela notou um avião, mas não chegou a ver a explosão da bomba de napalm. Só lembra-se de, repentinamente, ver o fogo e a fumaça tomando conta do templo budista em que se escondera junto com a família. E o fogo começou a lhe tocar. ‘‘Minhas roupas todas pegaram fogo, e eu sentia as chamas queimando meu corpo, especialmente meu braço’’, recorda Kim. ‘‘Eu estava chorando e, milagrosamente, ao correr meus pés não ficaram queimados. Só sei que eu comecei a correr, correr e correr.’’
Criança - ela era uma menina de nove anos -, Kim lembra-se de que teve preocupações de criança. ‘‘Naquele momento, passou pela minha cabeça que eu ficaria feia por causa das queimaduras, que eu não seria mais uma criança como as outras’’, revela, em entrevista à ‘‘BBC’’, de Londres. E ela estava certa. A partir daquele 8 de junho de 1972, aquela garota vietnamita jamais seria a mesma.
Phan Thi Kim Phuc foi uma das milhares de vítimas da Guerra do Vietnã. Mas nenhuma outra imagem retratou tão piamente as dores da guerra. De tão forte, autêntica e expressiva, a fotografia deu ao seu autor, o correspondente vietnamita Huynh Cong (Nick) Ut, um dos seis prêmios Pulitzer conquistados pela Associated Press (AP) pela cobertura da guerra entre 1964 e 1974. A imagem conquistou ainda os prêmios World Press Photo, Sigma Delta Chi, George Polk Memorial, do Overseas Press Club e do Associated Press Managing Editors (APME).
Naquele dia, o clima estava tenso em Trang Bang. O vilarejo, localizado a trinta minutos ao norte de Saigon, era cortado pela Rota 1, uma estrada estrategicamente importante que ligava a capital da então República do Vietnã, também chamada de Vietnã do Sul, à cidade de Phnom Penh. Era o terceiro dia de luta entre o exército vietnamita do sul, de um lado, e o vietnamita do norte aliado aos vietcongues, do outro. Kim e sua família decidiram esconder-se. ‘‘Minha família decidiu procurar abrigo em um templo, pois acreditávamos que lá era um lugar sagrado’’, lembra-se.
Perto do meio-dia, as forças armadas do sul pediram reforço aéreo para ‘‘desentocar’’ alguns vietcongues que estariam utilizando Trang Bang como base. Deu-se o ataque. Primeiro, bombas explosivas. Depois, incendiárias. E, por fim, rajadas de tiros vindos dos Skyriders. O silêncio que se seguiu foi quebrado instantes depois pelos moradores da vila que não conseguiram escapar a tempo.
Nick Ut, na companhia de outros fotógrafos, aguardava com uma Leica e uma Nikon a postos na estrada. ‘‘Quando nos aproximamos da vila, vimos as primeiras pessoas correndo. Pensei ‘meu Deus!’ quando, de repente, vi uma mulher com uma das pernas seriamente queimadas pelo napalm. Depois, veio uma senhora carregando um bebê, que havia morrido, e outra segurando uma criança pequena com a pele se desgrudando do corpo’’, recorda o fotógrafo, em entrevista à AGÊNCIA ESTADO.
‘‘Quando tirava uma foto deles, escutei uma criança gritando e vi aquela menina que havia tirado todas as suas roupas em chamas.’’ Kim gritava para o irmão, que estava à sua esquerda. ‘‘Nong qua, nong qua!’’ (‘‘Muito quente, muito quente!’’). Quando a menina parou de correr, Ut e outro correspondente jogaram água sobre suas queimaduras. O fotógrafo da AP ainda a ouviu dizer ao irmão: ‘‘Acho que vou morrer.’’
Em seu veículo, Ut levou imediatamente Kim e parte de sua família que havia conseguido escapar do fogo para um hospital local. O fotógrafo só deixou o local quando a menina já estava na mesa de cirurgia. E Ut foi então a Saigon cuidar dos negativos.
Kim só sairia do hospital (um outro, melhor estruturado, em Saigon) 14 meses e 17 cirurgias mais tarde. Desde então, sua vida mudou. Pessoas de todas as partes do mundo a procuravam, sob os olhos do governo comunista. Ela havia se transformado no símbolo nacional da guerra. Mesmo após seu fim, em 1975. Entrevistas, fotografias e um controle rígido de seus atos faziam parte do dia-a-dia da agora adolescente. Em 1986, ela teve a chance de estudar em Cuba. E foi. Na terra de Fidel Castro, conheceu Bui Huy Toan, vietnamita como ela, com quem se casou, teve dois filhos (Thomas e Stephen) e foi morar no Canadá.
Apesar da História oficial ainda contar o ataque como norte-americano, na verdade tratou-se de uma ofensiva das forças armadas sul-coreanas, naturalmente com o apoio dos Estados Unidos. Para Kim, no entanto, pouco importa quem apertou o botão. O perdão está dado.
Durante a cerimônia do Dia dos Veteranos em novembro de 1996, ela afirmou, em seu discurso diante de centenas de ex-combatentes, que, se encontrasse o responsável pelo ataque de napalm, iria pedir-lhe que lutasse com ela pela paz mundial. ‘‘Não tenho raiva dos Estados Unidos, não tenho raiva do Vietnã ou dos pilotos que lançaram a bomba’’, declarou. ‘‘Não quero falar sobre a guerra. Não posso mudar a História. Apenas sonho com o dia em que as pessoas poderão viver em paz.’’
Aos 39 anos, Kim é hoje Embaixadora da Boa-Vontade da Unesco e mantém uma entidade que ajuda crianças vítimas de guerra, a Kim Foundation International (www.kimfoundation.com), com escritórios nos Estados Unidos e Canadá. O objetivo é oferecer assistência médica e psicológica apoiando programas já existentes ou propondo ações onde for necessário.
Atualmente, a ONG apóia o projeto Doctors of the World e planeja dar suporte à Care (entidade mundial de assistência a países pobres, que recentemente aportou no Brasil) na Romênia, para levar adiante o projeto que trata de crianças vítimas de abuso e violência. Articulada desde 2001 com a entidade Save the Children, a Kim Foundation faz ainda um trabalho colaborativo em alguns programas relacionados a crianças vítimas de guerra e terrorismo. Há projetos no Afeganistão, Kosovo, Angola, América Central e Timor Leste.
Para a garota que trinta anos atrás teve a vida tocada pelo horror, no entanto, sua entidade não é a única forma de ajudar essas crianças. Kim acredita que expor sua tragédia - e a imagem da sua tragédia - também pode tornar o mundo melhor. ‘‘Essa foto mostra claramente como uma guerra é terrível para as crianças’’, considera. ‘‘Você pode ver o terror no meu rosto. Basta ver a foto para as pessoas aprenderem.’’

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