Um dos profissionais mais respeitados e admirados da imprensa paranaense, o jornalista Luiz Geraldo Mazza acaba de completar 84 anos, sendo 65 deles dedicados à profissão que escolheu. Do gosto pela literatura, que cultiva desde a adolescência, ao desafio de se adaptar às novas tecnologias da comunicação e informação, ele conta, nesta entrevista à FOLHA, um pouco de sua trajetória. Trajetória essa que começou no início dos anos 50, quando publicou suas primeiras linhas no Diário do Comércio, da cidade natal Paranaguá, e percorreu praticamente todos os grandes veículos de comunicação do Estado.

Dono de uma memória invejável e de uma habilidade ímpar em relacionar fatos cotidianos com passagens históricas da política, inclusive citando nomes, locais, datas e até horários, esse homem de sobrancelhas avantajadas e sorriso farto se tornou referência também para as novas gerações de repórteres, cada vez mais acostumadas a escrever com um olho no teclado e outro no Google. Ainda assim, se diz um privilegiado por conviver com tanta gente jovem nas redações.

Nas últimas seis décadas, Mazza passou pelo Diário da Tarde, pela Gazetinha, página esportiva da Gazeta do Povo, pelo Canal 12, hoje RPC TV, até chegar à Folha de Londrina, em 1970, e à CBN. Na rádio, comenta dois programas diários. Já no jornal, assina uma coluna mesclando temas políticos, comportamentais e discussões sobre o Estado e o País. Entre uma pescaria e outra, programa obrigatório nos finais de semana, arranja tempo para colaborar com a revista Ideias e participar como palestrante de seminários, congressos e semanas acadêmicas.

"Provedor" de quatro filhos, seis netos e quatro bisnetos, o comentarista recentemente foi homenageado com o lançamento do livro "Luiz Geraldo Mazza e Eloi Zanetti: comunicadores do Paraná", de Selma Suely Teixeira. A publicação, que deve ser colocada à venda nos próximos dias, traz histórias dos dois profissionais, o jornalista e o publicitário, em seus muitos anos de carreira. "Isso virou uma onda, uma mania de alguns amigos fazerem festa para mim. É uma coisa assim de sufocar, de tanta emoção", resume Mazza.

Quando começou seu interesse e sua trajetória no jornalismo?

Quando menino, uma das alegrias era pegar o nosso jogo de futebol, nos campinhos de pelada, levar o resultado para a Gazetinha, o jornal esportivo que saía na segunda-feira, e ver aquilo publicado. Sempre tive certa inclinação também pelo fazer literário, que aos poucos foi se manifestando. De repente, isso acabou dando em jornalismo. Começo com 20 anos, com colaborações para jornais de Paranaguá, de São José dos Pinhais, e para o Diário da Tarde. Era um tom de crônica, aliteratado. Eu tinha uma coluna chamada "À porta do café". Havia um café característico de Curitiba, o Café Paratodos, que ficava na travessa Oliveira Belo. Foi removido; um crime que cometeram contra a arquitetura histórica da cidade. Mas ali a gente tomava, já como estudante, passando do científico para a universidade (cursou Direito na UFPR), aquele queijo com pão e chocolate. E tínhamos discussões sobre pessimismo – (José María) Vargas Vila (escritor colombiano), (Arthur) Schopenhauer (filósofo alemão do século XIX), (Friedrich) Nietzsche (também filósofo e escritor alemão)...

Qual era o contexto político?

Nós estávamos em 1950. Mas isso se inicia um pouco antes. Pegamos uma parte da ditadura do Estado Novo. O Brasil se democratiza em 1946 - democracia efetiva, com Constituição. Houve a eleição do Getúlio Vargas, em 1950, e no Paraná do Bento Munhoz da Rocha. Nessa época, nós tivemos aquilo que eu considero o maior comício até hoje em Curitiba. Foi um comício do Getúlio, onde hoje é o Hotel Slaviero (no Centro da Capital). Um baita de um conflito. Havia mais de 50 mil pessoas na rua, numa época em que não existia show biz. A atração era o próprio candidato. Getúlio era uma figura de um poder carismático incrível e provocou aquilo. Deu uma briga por causa da eleição do Paraná, que colocava dois engenheiros como candidatos: um do PSD, que era o Angelo Ferrário Lopes, por sinal meu tio, e o Bento. Aí um pessoal que defendia a candidatura do PSD arrancou uma faixa do Bento e deu o tumulto. Até o Gregório (Fortunato), o anjo da guarda do Getúlio (chefe da guarda pessoal do ex-presidente), desceu as escadas do hotel para dar uns sopapos nas pessoas que brigavam lá na rua.

Sua participação em greves, no movimento sindical, foi intensa?

Nunca deixei passar uma. Em 1963, um momento importante da trajetória foi a greve dos jornalistas. Eu que fiz o discurso, numa assembleia unitária de gráficos e jornalistas, em que eu estava prevendo que eles iam trazer o Amaury de Oliveira e Silva para negociar. Nada contra ele, mas era o ministro do Trabalho! Eu era muito radical naquela época. Depois, aprendemos a usar o caminho mais curto para acertar as coisas. Íamos aos patrões para falar diretamente e quebrar resistência. Mas nesse caso tivemos que fazer a greve. E no Brasil greve de jornalista não dá certo. As que foram tentadas, mesmo as bem articuladas, eles quebraram a cara. A nossa eu não deixei. O jornal que tentou furar nós não deixamos sair. Foi o Diário do Paraná. Um troço terrível. O carro dos bombeiros, com aquela roda enorme, veio para frente do jornal com a ordem de dissipar o piquete. Você não pode fazer greve sem piquete; não tem condições. Nessa hora me disseram: "Nós queremos que você vá para a rádio – o 'Repórter Petrobras', da Rádio Independência – para falar". Eu fiz o troço mais anticomunicação do mundo. Entrei berrando: "10, 9, 8... Milhares de pessoas assistem aterrecidas à mais brutal demonstração de força...". E eles ficaram sem ação. Encheu tanto o local da arregimentação que vieram os políticos para nos dar cobertura.

Quais as principais mudanças que você observou na imprensa, principalmente no jornalismo diário?

Para você ter uma ideia da dificuldade que eu tenho com computador... Colegas meus bem velhos – eu era muito moço, 20 anos – tinham dificuldade de se entender com a máquina de escrever. Era comum profissionais – até donos de jornal – usarem canetas para corrigir e fazer textos. Por exemplo: tinha um gaúcho, o Barros Cassal, que era na época o mais polêmico jornalista, famoso pela poesia clássica. Ele fez um poema enorme, gigantesco, sobre o (Moisés) Lupion (ex-governador do Paraná), o Barão de Arapoti. Era um deboche, falava sobre os parentes que levavam vantagem no Estado. Esse cidadão costumava colocar seus textos com lápis tinta. Punha o lápis na boca e escrevia. Parecia os personagens do (filme) "O Nome da Rosa", aqueles monges copistas que ficavam com os lábios todos roxos. Isso só para acentuar essa questão técnica. As mudanças vieram. Veio a impressão a frio, as modernas rotativas, a cor entrou nos jornais, o que no começo foi muito difícil. Eu me lembro que a Folha de Londrina foi pioneira na impressão a frio e também nos cromos. Só que havia uma dificuldade extrema, porque a revelação era complicada, demorava. Não acompanhava o ritmo da urgência de um jornal. Mas a FOLHA foi pioneira nisso aí e eu estava lá quando houve essa mudança.

Sempre conseguiu se adaptar bem?

Sim. A única coisa que agora eu tive dificuldade foi o computador. Veio um engenheiro de sistema e nos preparou para trabalhar com a coisa, a nova tecnologia, mas eu tinha dificuldade notória; disléxico. Os jornalistas, com todos os hábitos e tiques da profissão, se adaptaram rapidamente. Eu que sou um analfabeto digital. A minha bisneta mais velha, que tem seis anos, faz todas as operações que eu não sei fazer.

Quais as peculiaridades de se fazer uma coluna diária no impresso e de ser comentarista de dois programas de rádio sem usar a internet?

É o seguinte: eu fico atento. Não sou um "gutemberguiano" – "ah, a mídia impressa..." Mas acho que a internet trouxe uma contribuição ao também cultuar a linguagem escrita, embora de uma forma altamente "bjos".

"Bjos"?

B-J-O-S. Esse linguajar de internetês. Mas, de qualquer forma, uma página de um livro de literatura pode ser colocada inteira na internet. Então, nesse aspecto da recuperação da cultura impressa, para impedir que o Brasil vire uma cultura ágrafa, nós temos um avanço também.

Quais as suas fontes de informação?

Eu sou muito atento às coisas que estão ocorrendo. Eu me mantenho ligado, tenho as minhas dificuldades – como o negócio da internet – mas assim mesmo eu consulto às vezes o Fábio Campana, o (blog do) Zé Beto... São assim os mais articulados. No mais, é muita conversa. Por exemplo: o que vou comentar num dia como hoje (quarta-feira)? Estamos na expectativa de que o encontro entre os professores (em greve) e o secretário da Casa Civil possa render alguma coisa. Então, eu faço uma avaliação sobre o grau de capitalização de energia do movimento dos professores, a pouca perspectiva do governo de trazer alguma concessão.

Qual é a sua rotina?

Converso bastante. Você sabe que eu ouço pouco rádio? Ouço só na hora que estamos fazendo ou quando estou no carro voltando da pescaria, e mais futebol. Apesar de estar no rádio há 18 anos... Acho um meio de comunicação excepcional, pelo feedback, a resposta imediata, a provocação que se faz com o Whatsapp, por telefone, declarações que você pode às vezes colocar no ar em tempo real – seja um acidente ou o bloqueio de uma estrada. Tudo isso é muito interessante. Mas eu acompanho o noticiário, reflito bastante sobre essas coisas. E tem um fator que me favorece, que é a memória. Às vezes tenho dificuldade, tenho de apelar para vocês na redação me lembrarem do nome de uma pessoa, de um autor. Mas a memória é um fator que me dá certo background, certa retaguarda. Quando eu vejo (alguém dizer) "ah, mas o maior comício que teve em Curitiba foi o das Diretas", eu digo: "Mentira; não foi. O maior foi esse do Getúlio Vargas". Tinha 50 mil pessoas e no das Diretas só tinha 20 mil. Outro exemplo: ameaçaram aí os parlamentares e disseram: "Ah, vamos botar os nomes deles num placar". Isso é bobagem. Quando houve as Diretas, botaram num placar, com júbilo, os caras que votaram contra. Ironia, porque grande parte dos que votaram contra ganhou a eleição. É um poder relativo. Aliás, a política seguidamente nos dá essas surpresas, que não são tão surpresas assim. Política é dinâmica.

Muitas redações fecharam ou diminuíram de tamanho nos últimos anos. Como manter a paixão pelo que faz até hoje?

Na verdade, um pouco porque eu preciso. Sou um provedor da minha casa, ajudo muito meus filhos. A família cresce – netos, bisnetos – e você tem que estar ajudando. Mas nada supera a minha alegria, a minha euforia, posso dizer assim, de estar com gente jovem - o pessoal da rádio, da FOLHA; vir aqui todos os dias. Eu estou aprendendo com esse convívio. E isso para mim é meio trabalho e meio lazer, uma coisa que me faz bem. Eu não sou muito cobrado pelo que faço, pelas mancadas que eventualmente dou. Acho que há um pouquinho de complacência das pessoas. Agora, essa alegria... Isso não tem dinheiro que pague. Inclusive de você ser recebido por essas pessoas como um igual. Ninguém fala que eu estou de bengala e bem de idade. E, às vezes, até por causa dessas concessões que fazem para mim, eu elejo uma ou outra musa na redação. Isso tudo é muito bom para o espírito. Eu estou trabalhando e aparece para me dar uma entrevista na rádio o neto de um companheiro meu, o que me faz um bem extraordinário, porque me coloca permanentemente no tempo das coisas.

Qual o sentimento de receber tantas homenagens?

Isso virou uma onda, uma mania de alguns amigos - Jaime Lechinski, Dante Mendonça... - fazerem festa para mim. Fizeram em 1985 uma homenagem por 35 anos de jornalismo: o Baile do Mazza, no (Clube) Concórdia, com músicas dos anos 50 e 60. Uma coisa assim de sufocar de tanta emoção. Nessa época, ganhei o título de cidadão honorário de Curitiba. Eu fiz um discurso muito emocional e tinha uma página na minha mão que era branca. E os caras achando que eu estava lendo. Foi tudo no improviso. Depois de novo: 80 anos e a festa enorme. Os caras iam lá pagando R$ 50. Sabe o que é tomar cinquentão de jornalista? Foram, na hora lançaram um jornal, o Jornal do Mazza, com depoimentos. E agora, 84 anos, houve o lançamento do livro. Nova torrente de emoção. Inclusive o Canal 12 (RPC TV) me chamou para dar um depoimento não pelo livro, mas pelo meu histórico. Eu fui diretor de jornalismo lá de 1970 a 1981 e tinha gente ainda da minha época. A geração nova, que conhece a minha história, o pessoal mais antigo... Fizeram um negócio que me deram outro porre de emoção.

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