A mediocrização da mídia
A mediocrização da mídia
Joel Samways Neto
Mais dia, menos dia, e o Brasil terá que colocar parte de sua mídia no banco dos réus, acusada de mediocrizar deliberadamente o País. É o que já está acontecendo nos países do Primeiro Mundo, notadamente depois que a mídia sensacionalista européia foi considerada a principal responsável pela tragédia que vitimou a princesa Diana.
A mídia sensacionalista é uma espécie de rufiona, cafetina, dos fatos que atendem aos baixos instintos da sociedade. Ela explora comercialmente o mediocridade, portanto agencia a mediocrização do público consumidor.
Sem dúvida, trata-se de um fenômeno social de final de século, quando usos, costumes, tabus, folkways, mores, são revirados, questionados, abusados, numa preparação para o novo do momento seguinte. É uma fase do processo de revolução de valores que estamos vivendo. Agora, sem crítica a essa fase, corre-se o risco de que ela dure mais tempo do que deveria.
Note, leitor, algumas distorções cometidas pela mídia sensacionalista, pinçadas ali e acolá, dentro do cenário político nacional. Enquanto os brasileiros estão passando (e, em alguns casos, arrebentando-se) pelas mudanças institucionais mais importantes das últimas três décadas, com a votação, pelo Congresso Nacional, da chamada Reforma do Estado - uma das propostas de governo que elegeram Fernando Henrique Cardoso presidente da República, em outubro de 1994 -, a mídia sensacionalista prefere ciscar lixo. Foi o que aconteceu em relação aos saques praticados sob a batuta do Movimento Sem-Terra (MST), no Nordeste. Fizeram uma pergunta ao ministro Sepúlveda Pertence, do Supremo Tribunal Federal, sobre o assunto, e o ministro, em sua resposta, fez referência ao furto famélico, que não é considerado crime. A parte abusada da imprensa imediatamente publicou que o ministro era favorável aos saques. E aí, se dirigiu ao presidente Fernando Henrique, perguntando o que ele achava daquela declaração do ministro Pertence. E o presidente, num momento de distração, respondeu apenas em cima da pergunta, sem se informar melhor sobre o inteiro teor da declaração do referido magistrado. Pronto, a imprensa sensacionalista semeara e agora colhia os frutos de uma realidade absolutamente montada, construída na base do diz-que-diz-que. E como esse sensacionalismo deve ter vendido!
Depois veio a história dos vagabundos da aposentadoria precoce. No bojo de uma aula da sociologia (como de hábito do professor Fernando Henrique), que foi o discurso de abertura do 10º Fórum Nacional de Altos Estudos (Inae), segunda-feira da semana passada, o presidente criticou as aposentadorias precoces obtidas antes dos 50 anos. Lá pelas tantas, ele disse não sejam vagabundos (essa parte do discurso, inclusive, foi veiculada várias vezes no rádio e na TV). Pronto, a mídia sensacionalista publicou, no dia seguinte, que o presidente chamara os aposentados de vagabundos. Um barbarismo, uma manipulação grosseira da verdade. E que foi explorada de todas as formas, incitando, na prática, a que o brasileiro pensasse que o presidente houvera realmente xingado o trabalhador. Isso deu ensejo para que muita gente viesse expressar através dos canais abertos pela mídia aos leitores, ouvintes e telespectadores, reclamando respeito à sua dignidade. Veio o trabalhador rural, veio o trabalhador que começou a trabalhar aos 12 anos, veio o professor etc., todo mundo descendo a lenha agora já não mais no discurso presidencial, mas na pessoa do presidente. A coisa rendeu uns três dias de matéria jornalística, até que o presidente resolvesse explicar o sentido correto de suas palavras.
Seria de rir, apenas. Porém, no Brasil, primeiras páginas criam fatos políticos. Parlamentares colocam jornais debaixo do braço e vão à tribuna discursar contra ou a favor de alguma coisa, só porque publicaram uma reportagem, uma denúncia unilateral, uma suspeita e assim por diante. E dali a pouco o negócio vira uma comissão parlamentar de inquérito - e então a mídia sensacionalista vai ao delírio (semanas e semanas de notícias garantidas).
Estertores do século que está terminando. Revolução de valores. Ao abuso da mentalidade oportunista, leviana, que industrializa notícia e cultura, sobrevirá, certamente, a mentalidade sóbria, do equilíbrio, como novidade. Simplesmente, não posso deixar de acreditar nisso. É questão de sobrevivência e de esperança.
P.S.: Agradeço as gentis palavras do jornalista Luiz Geraldo Mazza, semana passada, comentando a opinião que tinha enviado à rádio CBN. Sinto-me honrado com sua amizade. De resto, consegui fazê-lo cantar para os ouvintes uma marchinha supimpa, não foi?
- JOEL SAMWAYS é escritor e procurador do Estado do Paraná.





