A medida do desperdício - Jales Marinho
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terça-feira, 27 de outubro de 1998
Jales Marinho 
Para avaliar o empenho dos ministros na ofensiva pela contenção de gastos na máquina administrativa, o presidente Fernando Henrique deveria convocar seus auxiliares para uma reunião ministerial e fazer um teste com cada um, perguntando, por exemplo, qual o valor da conta mensal de água, luz, telefone ou mesmo aluguel de prédio para funcionamento de órgãos vinculados a determinado ministério.
Seria imprevisível a resposta. Evidentemente, os que desconhecessem tais valores poderiam muito bem alegar que não iriam perder tempo acompanhando esse tipo de varejo. A atribuição seria quando muito do secretário-executivo.
É claro que essas despesas não pesam significativamente no desembolso mensal de um ministério. Entretanto, se as projetarmos no conjunto da máquina pública, do poder central a estados e municípios, incluindo o Legislativo, em todos os níveis, e o Judiciário, em todas as instâncias, além do aparelho de segurança pública, chegaremos a números colossais.
Se observarmos que não é da cultura do Poder Público controlar com rigor esses desembolsos, chega-se à conclusão de que poderia estar aí um dos ralos por onde escoa parte significativa dos recursos públicos necessários ao equilíbrio das contas do Tesouro.
No lugar da cultura favorável ao racionamento desses gastos, o que se tem visto em todos os níveis do serviço público é o funcionário deixar de fazer interurbano em casa para fazer do seu local de trabalho.
Muitos órgãos chegam até a experimentar algumas formas de controle, mas acabam desistindo diante das resistências do quadro de servidores em observar as recomendações. No caso da energia, o controle seria até mais fácil, mas a falta de comprometimento com a redução de gastos é tamanha que nenhuma medida de controle consegue prosperar nas repartições públicas.
Nos bancos oficiais, o fato mais comum é empregado e cliente usarem formulários como rascunho, porque nem sempre há o cuidado de colocar à disposição de todos papéis adequados para anotações.
O desperdício de material de expediente também é assustador. Em qualquer repartição que se entra é comum ver clipes espalhados pelo chão. Aparentemente, seria um desperdício insignificante. Mas, se cada empregado de uma estatal como o Banco do Brasil resolver jogar fora um clipe diariamente, teremos um desperdício de cerca de 1,8 milhão de clipes por mês ou quase 22 milhões por ano. No comércio, cada caixa de clipes com 100 unidades custa R$ 1.
A burocracia também é generosa na hora de autorizar despesas. Em nome da descentralização e da boa gestão pública, até os chefes mais modestos têm autonomia para autorizar desembolsos. Basta um deles ser promovido à chefia superior, para encontrar defeito no carpete, achar que sua mesa está muito semelhante à dos subordinados ou reclamar do lay out da sala. Resultado: com um simples memorando - ou correio eletrônico - ele solicita a imediata substituição do carpete, da mesa e até de divisórias. Capricho ou não, não importa. O que importa é gastar.
Acredito que é isso que falta ao governo como um todo. Fazer com que o administrador gerencie as contas públicas com a mesma eficiência com que o faz com suas contas domésticas. Então, seria mais fácil - ou até desnecessário - falar de ajuste fiscal sem ter que discutir mais uma vez aumentos de CPMF, de contribuição previdenciária, que só apenam ainda mais a sociedade. O Brasil só tem a ganhar com a austeridade.
- JALES MARINHO é jornalista em Brasília


