Uma dos pontos mais importantes a observar nas discussões recentes do drama argentino é o que diz respeito ao reconhecimento do FMI que errou ao dar suporte ao sistema de câmbio fixo durante tanto tempo. As manifestações de ‘‘mea culpa’’ de antigos funcionários que deixaram a organização e agora comentam as discussões internas, revelam as motivações políticas que influíram nas decisões, respaldando a continuidade de um regime claramente insustentável. Um diretor do Fundo, após informar que ‘‘várias análises mostraram que a Argentina conseguiria resistir às pressões que a paridade peso-dólar exercia sobre a economia do país’’, confessou: ‘‘à medida em que o ano avançava notamos que o país não ia resistir. No fim, viu-se que o regime não era sustentável. O que aconteceu depois de agosto de 2001, não era o que esperávamos...’’
Mais dramática, ainda, é a revelação do novo ministro da economia argentino, Jorge Lenicov, ao comunicar com absoluta crueza aos titulares de contas bancárias que eles tinham sido vítimas de uma fraude todo esse tempo. ‘‘Os dólares não estão no sistema - disse ele - porque nos últimos anos criou-se um sistema perverso. As pessoas faziam depósitos em pesos, mas as enganavam, porque diziam a elas que os saldos eram convertidos em dólares. A Argentina chegou ao cúmulo de criar dólares que não existem. Não há dólares’’ - completou.
A verdade é que a sociedade argentina foi submetida a um longo processo de espoliação, fruto da irresponsabilidade política de seus dirigentes e do FMI. Os correntistas estão com seus depósitos confinados naquilo que eles chamam de ‘‘curralito’’ e os bancos não têm os dólares que aparentemente deveriam ser a contrapartida dos pesos depositados. Não há como devolvê-los. Hoje, mesmo após a liberação do câmbio, com a cotação no mercado em torno de 1 dólar para 1.9 pesos, o governo tem uma enorme dificuldade de convencer os correntistas, porque não existem dólares disponíveis.
A Argentina obteve respaldo para sustentar um regime cambial que era claramente insustentável com a política fiscal que mantinham. Quando isso ficou demonstrado de maneira trágica, os organismos internacionais ‘‘tiraram o time de campo’’, com a mesma irresponsabilidade política. O povo argentino está pagando muito caro por isso e é provável que ainda vá continuar sofrendo um bom tempo, pois há uma enorme dificuldade para se restabelecer a confiança nos dirigentes e o sistema bancário perdeu por completo a credibilidade. Para resistir, o sistema bancário depende do governo que se declara falido. Não são problemas que se resolvam com a simples ‘‘mea culpa’’ do FMI.
ANTONIO DELFIM NETO é deputado federal (PPB/SP) e ex-ministro da Economia e da Agricultura

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