A máscara de um governador nu
Perdoas ... és cristão ... bem o compreendo ...
E é mais cômodo, em suma.
Não desculpes, porém, coisa nenhuma,
Que eles bem sabem o que estão fazendo ...
Mario Quintana no poema De como perdoar aos inimigos
Quem assistiu ao jornal das sete da Rede Globo no dia 06 de fevereiro de 2002, pôde perceber que a imprensa, que vinha trabalhando ativamente para cobrir parcialmente a greve das Universidades Estaduais do Paraná, teve que jogar a toalha para um público que já não admite mais ser tutelado pelo estabilishment político vigente.
A matéria daquele jornal televisivo mostrava dois encontros, um com uma comissão de estudantes e outro com uma comissão de professores com o secretário de Ciência e Tecnologia, Ramiro Wahraftig. O encontro foi tão estapafúrdio que o secretário, quase gaguejando, dizia que, independente se a reivindicação do reajuste de salários de 50,03% estivesse a priori excluída de uma condição sine qua non, o governo não negociava mais pois o prazo de validade da proposta governamental (que era a de estudar as perdas salariais) estava vencido (em janeiro deste ano).
Ao ouvir essa afirmação, a repórter, após entrevistar um aluno e um professor sobre essa afirmação gaguejante do secretário, não aguentou e disse uma coisa do gênero: é muita conversa e nenhuma medida efetiva!.
Após essa afirmação (coisa rara na televisão ou no jornalismo brasileiro ...), a matéria foi direcionada a uma visita que o ex-candidato a intelectual, ex-genial arquiteto e atual governador do Estado fazia à cidade de Cascavel. Perguntado sobre a greve, e sobre as incoerências do governo em relação ao movimento paredista, Lerner quase teve uma síncope cardíaca e perdeu a compostura. Emocionalmente, o governador estava fora de si. Tanto é, que seu staff, ou como é conhecido na Itália, seus porta-borse (puxa-sacos, em bom português), entrou em pânico e pedia, por gestos, que se cortasse logo a transmissão da entrevista.
Lerner havia mostrado até agora sua máscara, mas foi justamente a rede Globo que a fez cair. Vimos um governador obeso pela opulência, colérico, vermelho, espumante, muito distante da intelectualidade que ele tentou vender nestes anos todos. Lerner está jogando, e perdendo! O pouco da dignidade que possuía perdeu-se de forma muito mais meteórica que o seu colega de porta-borsismo de FHC, o ministro da Educação Paulo Renato de Souza, que igualmente como Lerner, agiu como um rinoceronte numa loja de cristais.
Lerner está mergulhando a sociedade paranaense no caos. Está prejudicando a sociedade que o permitiu chegar onde chegou. É triste! Mas é assim que se revelam as verdades profundas das coisas. Lerner, tal qual a historiazinha infantil, está nu, completamente nu. Não na roupa, mas no pouco da dignidade que ainda lhe resta.
Ainda há tempo para ser magnânimo, governador, mas o último grão de areia está entrando no gargalo da ampulheta. Negocie, governador! Esse é o desejo não somente de alunos e professores, mas de toda uma sociedade que exige respeito às Instituições Públicas que ainda restaram nesse País.
MARCOS CESAR DANHONI NEVES, professor titular do departamento de Física da Universidade Estadual de Maringá





