Os sem-terra abriram precedente curioso com suas marchas e podem inspirar muitas iniciativas semelhantes. Imaginemos, se a moda pegar, quantas caminhadas poderão ocorrer pelo Brasil todo! Pois vejamos algumas possíveis e por certo que o leitor amigo listará outros segmentos da sociedade em condições de sair às ruas ou estradas como fizeram os sem-terra.
Em face deste quadro, o que dizer:
Dos sem-carro, milhares de trabalhadores que se apinham em ônibus ou em trens suburbanos nas grandes cidades em horários de ‘‘pique’’ nas madrugadas ou noites;
Dos sem-emprego, jovens, homens e mulheres no desespero da busca de trabalho para a sobrevivência, emprego escasso diante da demanda;
Dos sem-saúde de todas as idades, que perecem até nos corredores de hospitais ou mesmo filiados a planos de saúde, porém desamparados;
Dos sem-segurança, que vivem o pesadelo de sofrer agressões, assaltos e morte nas ruas no campo ou no interior da própria casa;
Dos sem-justiça, aqueles que tendo a sua propriedade invadida recorrem ao judiciário, cujas decisões não são cumpridas;
Dos sem-pais, crianças geradas e deixadas ao abandono ou aos cuidados de terceiros;
Dos sem-casa, moradores embaixo de viadutos, pontes ou nas ruas expostos ao tempo;
Dos sem-escolaridade de todas as idades, ainda vítimas da cegueira do analfabetismo;
Dos sem-assistência da família, anciãs e anciãos internados em instituições sem ao menos serem visitados, embora a Constituição do Brasil estabeleça o dever dos filhos de amparar os pais na velhice, não bastasse o sentimento humano de ampará-los;
Dos sem-higiene e saneamento básico, famílias localizadas nas favelas ou às margens fétidas de rios poluídos, servindo-se de água imprópria ao consumo;
Dos sem-esperança, pessoas que lutaram a vida toda para alcançar objetivos de realização pessoal, econômica, familiar, profissional e nada conseguiram ou tudo perderam;
Dos sem-amigos, pessoas que não souberam cultivar amizades e no ocaso da existência vêem-se marginalizadas, tristes, solitárias;
Dos sem-dinheiro, tantos que ganham o insuficiente para as necessidades básicas;
Dos sem-amor, indivíduos cuja vida embruteceu diante das infidelidades, traições e injustiças sofridas ao longo da existência;
Dos sem-Deus, homens ou mulheres voltados apenas para o material na luta insana para acumular riquezas e angariar bens terrenos, sem qualquer preocupação com a solidariedade humana e menos ainda com os valores do espírito.
Pense-se em todas essas categorias e em muitas outras fazendo suas marchas reivindicatórias. Como atendê-las? E se a marcha fosse coletiva, escaparia alguém? Haveria condições de satisfazer a todos como estão os governos, num esforço gigantesco, empenhados e quase coagidos a resolver o problema dos sem-terra dando-lhes terra?
Podem estes considerar-se mais que felizes, pois mesmo invadindo propriedades, desalojando legítimos donos, agredindo por vezes, em desrespeito à lei e à ordem pública, ainda assim têm eles sido alvo de todas as atenções quando há tantas e tantos anônimos, inocentes, humildes trabalhadores, dedicados, honestos, cumpridores dos deveres, sujeitos à lei e que estão padecendo agruras para conseguir um lugar ao sol. São parte do ‘‘Exército’’ que não marchou, mas pode marchar.

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