O milênio que chega ao fim trouxe consigo uma pesada herança social: pulverizou todas as relações entre cultura e fé religiosa. A humanidade renascentista, o iluminismo e a Revolução Francesa são etapas de um processo que conduziu ao laicismo e à secularização da cultura, inclusive em países de florescente tradição cristã.
Não deixa de ser verdade que, ao longo desse tempo, a razão humana distanciou-se da fé e reivindicou para si uma autonomia total: determinou suas divindades, estabeleceu seus cultos e liturgias, decretou ‘‘a morte de Deus’’, substituindo-o pelo culto à razão. Estabeleceu ainda a impossibilidade de convivência entre a razão e a fé, entre a ciência e a religião.
Começaram então os tempos áureos da ‘‘liberdade, igualdade e fraternidade’’, declarou-se superada a identificação entre o cristão e o cidadão, típica dos antigos regimes cristãos; surgiu o homem como centro de toda a vida social, rejeitou-se a cultura humanista e, em seu lugar, surgiu o racionalismo e o laicismo. A metafísica sumiu do mapa escolar, abandonou-se a filosofia do ser para dar espaço a uma postura filosófica niilista.
Dentro desta visão cultural, somente havia lugar para o método indutivo. Tudo quanto ultrapassasse os sentidos e a verificação científica não tinha direito de cidadania; a religião passou a ser considerada como uma espécie de apêndice, uma questão subjetiva, individual e privada.
Contemplando a Marcha do Milênio, fica-se perdido e sem horizonte de futuro, visto que o homem, quando entre às próprias possibilidades, esgota-se no sumidouro das próprias limitações. Para felicidade da humanidade, é nestas horas que o poder do Criador se mostra maravilhoso e forte. Digam-no os israelitas, quando se encontravam espremidos entre o Mar Vermelho e o poderoso exército do faraó.
Mas será que o homem moderno, empinado em seu orgulho, terá condições para clamar ao Senhor, como fizeram os israelitas? João Paulo II acredita firmemente que, nesta hora de trevas e penumbras, não faltam sinais positivos da aproximação de Deus. O homem, segundo o papa, procura a divindade.
Entre os sinais positivos, o papa coloca os progressos realizados pela medicina a serviço da vida humana, os esforços para restabelecer a paz e a justiça, lá onde ambas se encontravam banidas ou violadas, a vontade de reconciliação e solidariedade entre os povos.
Destes sinais apontados já tivemos algumas manifestações nas recentes Olimpíadas, quando povos, divididos pelo ódio e pela discórdia, desfilaram à sombra da mesma bandeira; quando homens e mulheres, sofridos e enlutados, foram ovacionados ao entrarem no Estádio Olímpico de Sydney.
Sim, a modernidade não pode viver no isolamento nem na contradição. Cansado de guerras e de fracassos, o homem ambiciona a paz. E, se por um lado, o mundo moderno teve rompantes de progresso econômico e social e multiplicou a quantidade de bens produzidos, também é preciso reconhecer que o mesmo mundo se julga fraco, sem inspiração ética e espiritual, a ponto de criar novas formas de pobreza e marginalidade, redutores da felicidade, da justiça e da paz.
Por outro lado, se o mundo moderno criou espaços de liberdade e democracia, cultivando importantes valores humanos e sociais, também é verdade que o mesmo mundo liberou forças negativas que estancaram estas novas conquistas ou as esvaziaram de conteúdos e valor. E, se em alguns casos, a civilização moderna deu vida e fundou organismos internacionais em prol da justiça e da paz, não se pode esquecer que, em outros casos, a mesma civilização provocou guerras, incentivou matanças, acelerou a corrida armamentista e criou o monstro da guerra atômica e da guerra fria.
Entre estas e outras contradições é forçoso admitir que a tentativa de romper com o Criador e de substituir a inspiração cristã por ideologia de massa e artifícios de morte, acabou por dar uma visão materialista e distorcida da vida e da sociedade humana. Em vista disso, encontramo-nos distantes de Deus, diante de uma cultura vazia de conteúdos permanentes e despojada de futuro; cultura que exalta os desvios morais, a violência, a força e a tirania; cultura incapaz de construir a tão sonhada sociedade do futuro.
Entretando, na hora presente importa olhar com óculos de luz e de futuro; importa que, em meio às sombras, descubramos ‘‘sinais de esperança’’, isto é, espaço para o diálogo respeitoso com as religiões e culturas contemporâneas para, juntos, encetarmos ou continuarmos a marcha do milênio.
- VENDELINO ESTANISLAU é professor universitário em Curitiba

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