A Marcha chegou. Caminharam de 23 de setembro a 22 de outubro. Uma contagem. Um cinturão humano num caldeirão político de presos, secretário de Segurança, Bradock, reforma agrária, barracos queimados, parcialidades e imparcialidades. Os trabalhadores sem terra afastaram sombras e fumaças de discursos que insistiam na criminalização de um movimento. A marcha, queiramos ou não, é um movimento, uma fila de desejo, em desejo de vida, em romper as cercas do preconceito.
Cidade a cidade os sem-terra foram sendo bem recebidos. Em Ponta Grossa o prefeito J.C. não os recebeu. O outro J.C. gostava dos pobres, o de Ponta Grossa não está nem aí.
Mas se tudo isso faz parte de um jogo, só se este for do governo. Quem andou 600 km com uma marmita debaixo do braço, com um chinelinho esgarçado pela chuva, quer um pouco mais que o xadrez empoeirado do Palácio Iguaçu. Quer ações concretas, quer fazer valer aquela esperança trazida em madrugadas de sono e frio. Quer aquilo dito no ontem e que foi esquecido. Aquilo que durante tanto tempo se empilhou em tantos aparelhos estatais, em tantas promessas no culto eleitoral, transformando em sacramento a reforma agrária. Reforma agrária que, tomando um sentido de intocabilidade, virou sinônimo de vai levando. ‘‘E a gente vai levando’’.
Mesmo encaixotados dentro de decretos-leis, medidas provisórias, e na pouca operância do Incra, os sem-terra, os sem-privilégios, os sem-crédito demonstram produzindo, na prática, que o solo fértil, outrora terra de capim, pertencente à família-capim, latifundiários de renome nacional, sacia a fome de milhares de famílias, gera emprego a outros tantos, contém o extravazar de miseráveis nas grandes cidades.
Segundo a FAO, a renda média nos assentamentos do Brasil é de 3,7 salários mínimos. Fato: quem pode hoje manter-se com 1 salário? Outro fato: quem ganha 3,7 salários nas grandes cidades? Mais um fato: quem consegue viver nos grandes centros com salário mínimo não vive, apenas segue adiante. Os assentamentos têm mostrado viabilidade econômica, e antes de tudo social, erradicando a mortalidade infantil, erradicando o analfabetismo, erradicando a fome, gerando renda nos pequenos municípios, tornando viável o que antes era inviável, mostrando à sociedade a possibilidade do possível. Mudando sem precisarmos nos subordinar a acrobacias globalizantes, retomando a dignidade e a cidadania perdidas.
E a Justiça? Ah! A Justiça. Uma certeza todos nós temos, como disse Bisol, ex-senador e juiz, ‘‘O juiz não pode raciocinar com arquétipos de 1916’’. É verdade. O campo mudou, só o que não mudou foram a concentração fundiária e o trabalho escravo, que pingadamente ainda assola a pátria, como vimos em laranjais em São Paulo. O artigo 184 da Constituição Federal deu um tapa de luva nos latifundiários. Inseriu no contexto a função social da propriedade. Propriedade chamada terra, e que no mundo da mercadoria deve se dispor a serviço do todo social. A serviço de todos. O esbulho possessório, palavrão estranhíssimo, que caracteriza quem quer retirar a posse de outrem para tirar proveito próprio, não é o mesmo de quem ocupa a terra com fim de concretizar um direito. Citando recente acórdão do ministro Luiz Vicente Cercchiaro, do STJ: ‘‘Movimento popular visando implantar a reforma agrária não caracteriza crime contra patrimônio. Configura direito coletivo, expressão da cidadania, visando implantar programa constante na Constituição da República. A pressão popular é própria do Estado de Direito Democrático’’. O acampamento, a ocupação, torna-se uma luta legítima e justa. Inegavelmente necessária, a pressão do acampamento, da ocupação, situa-se além do plano de querer, provoca um debate nacional sobre o que é justo, abre-se no propósito de nos superarmos, de superarmos a exclusão.
O governador insiste: a marcha é injusta. Diz: por que a Marcha só no Paraná? Infelizmente, governador, é no Paraná que Bradock surgiu. Foi no nosso Estado que a mão do Palácio despachou 24 prisões. Foi aqui nesta terra que lonas pretas arderam em fogo em Santa Izabel do Ivaí. Lá, no entanto, os encapuzados contratados pelos fazendeiros não foram presos. O governo peca pela imparcialidade. A Marcha, palavra para os sem-voz, chegou a seu destino.
A Marcha chegou. E agora? Clamam os trabalhadores do lado de fora do Palácio. Grita a consciência de quem tem a responsabilidade do lado de dentro. Façamos 22 sem 38. Façamos um dia 22 como um grito de alerta na defesa da paz, da cidadania, do direito ao emprego, da concretização da reforma agrária. E que se faça.

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