A manipulação embutida na contravenção
Neste Brasil de jogatina institucionalizada porque o Governo é o grande bancador de jogo é difícil aos organismos de repressão acabar com as máquinas caça-níqueis, uma contravenção penal que encerra em si mesma outro delito, o de manipular o mecanismo eletrônico e assim dificultar que o apostador ganhe. Ontem, o questionamento feito neste espaço foi de que pode estar havendo manipulação também nos resultados das lotos oficiais conforme suspeita levantada pelo jornalista Cláudio Humberto. Isto atesta que onde há jogo podem estar associadas práticas delituosas inerentes.
Suspensos os bingos, as máquinas eletrônicas ganharam mais espaço. O número delas parece crescer como cogumelo,
porque as apreensões são freqüentes, sinal de que essa contravenção tem processo contínuo. Na operação mais recente da Promotoria de Investigações Criminais, em Londrina, foram apreendidas 200 dessas máquinas e também veículos, dinheiro e armas. A meta é, pelo seqüestro de bens, minar financeiramente quem explora essa jogatina e dificultar sua reestruturação. Todas as práticas de jogo sempre favorecem quem o banca, e tanto pior para o apostador se há manipulação de resultados. Dessa suspeita não escapa nem o Governo, que sob a administração da Caixa Econômica Federal banca jogo todos os dias e arrecada fortunas.
Outras formas de vício são o tradicional jogo-do-bicho, já incorporado ao folclore brasileiro, e o carteado, sob os quais as autoridades já fazem vistas grossas, porque é difícil controlar. Para quem não sabe, o invento made in Brazil do jogo-do-bicho foi levado a Nova York, onde os patrícios que lá habitam fazem as apostas, assim como muitos norte-americanos já viciados. Nos EUA, a questão do jogo foi regulamentada com a implantação de grandes e luxuosos pontos como Las Vegas e Atlantic City, que rendem dividendos fabulosos também para os cofres públicos e atraem jogadores milionários e turistas de todo o mundo. Toda a cadeia de serviços afins ganha. No Brasil, os cassinos foram proibidos e o Governo acabou tomando o lugar (e os lucros) deles implantando as lotos.
Todo o jogo de azar que envolve dinheiro deveria ser combatido, porque mina sobretudo a economia dos pobres. Que, no lugar do leite das crianças, como se costuma dizer, gasta em apostas, nas mais diferentes modalidades. A pior delas a das lotos, que, conforme se disse ontem neste Editorial, são uma forma de imposto que o povo paga por livre decisão mas que não deixa de ser uma sangria na minguada economia popular. Se há a oferta de jogo, as pessoas são vítimas da tentação, e quem a faz também é responsável. Muito mais grave quando esse agente é o Governo, que deve ter em seus postulados o de o cidadão zelar pelo seu dinheiro e de a estabilidade econômica do povo não ser enfraquecida.





