Uma das ilusões dos utopistas de todos os quadrantes é a de que no frisson das batalhas se solucionam todos os problemas: a socialização dos bens de produção, por exemplo, tese marxista, pode resolver até o ardume tenso das hemorróidas, um nirvana enfim, uma espécie de estado de graça. É a forma ingênua e radical, romântica também, do pensar político.
Dá para vislumbrar o que ocorre neste momento na Venezuela com a sagração desse populista visceral que é Hugo Chávez com o seu retumbante retorno ao poder, depois de apeado por um golpe. É a hora de achar que tudo está nos trilhos, como se deu aqui no Brasil em 1961 com os militares impedindo a posse de Jango e levando a pior e dando o troco radical, três anos depois. A música de Geraldo Vandré, que o levou pela tortura a ser ‘‘quebrado por dentro’’, é bem típica dessa crença na exatidão e no absoluto: ‘‘Quem sabe faz a hora, não espera acontecer’’. Ironicamente, apesar da generosidade do cântico, quem fez a hora não foi o músico e sim os seus torturadores. Com a torcida do Atlético se aprende que se deve cantar enquanto se ganha, já que o canto os males espanta, ainda que não impeça uma derrota de 5 a O na Libertadores.
Repete-se esse clima no caso das eleições: ganhe quem ganhar haverá, como sempre, aquela crença de que tudo se acomoda na vitória, mesmo quando há mais de uma facção partilhando o banquete, isso sem falar no realinhamento de forças e na busca do consenso. Daí é que surge a noção de que se ganhou uma batalha e não a guerra e que essa vai depender de uma estratégia que tenha a visão de longo prazo e que saiba conter a paixão dos imediatistas que acham que chegou a hora de não esperar acontecer. Essa ilusão permeia a tragédia dos palestinos com sua terra ocupada e espezinhada por um exército gigante que nem parece estar ligado a um povo que sofreu o holocausto e que acredita também dever esgotar a violência agora sem visão do horizonte e do amanhã.
BIZARRICE STF deu ganho de causa a Maluf no caso dos Fuscas que doou aos craques da seleção de 70. Caso levou 32 anos, mais dois do que a guerra dos 30 anos. O Fusca saiu de linha, a seleção também e Maluf ponteia o Ibope.
AXIOMA O nexo da propaganda de cerveja é o sexo. Mulheres coisificadas em garrafas, é claro, porque em barris lembrariam as brevelíneas e gordotas. E isso iria soar como publicitariamente incorreto.
GLOSA Partidos não sabem se ficam na vertical ou na horizontal. Na primeira estariam na forca e na segunda enterrados no cemitério.
EPIGRAMA Tony Garcia quer ser o único postulante ao Senado da base aliada para concentrar o tempo de tevê. Mais do que um Tony quer ser o tônico eleitoral. E nessa pode acabar fazendo o gol contra que acusa nos outros.
FOLCLORE Como o Tony Garcia raciocina que a oposição faz com certeza um dos senadores conclui-se que a turma do gol contra, considerada a hipótese de a bancada oficial fazer um deles, continua ganhando de dois a um. Então o princípio do gol contra, como mal a extirpar, não serve como referência, porque aritmeticamente é inafastável.
CROMO A caspa do poeta não era purpurina: como faz falta o Liberalino e suas populiras apascentando o cabelo revolto das amadas.

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