A maior de todas a mães - Walmor Maccarini
A maior de todas a mães
Walmor Maccarini
Se chove demais começamos logo a maldizer a chuva, mas quando precisamos dela não temos nem vergonha de pedir-lhe que venha. Se faz sol por longo período ficamos nos lamentando que o calor está terrível e sufocante, mas esperamos por ele para que germine as sementes e seque nossas roupas. Como vamos conviver harmoniosamente com o sol e a chuva se os queremos só quando nos são convenientes, e a certo momento passamos a amaldiçoá-los, sem a mínima gratidão e reverência?
Se faz frio culpamos o tempo pela nossa gripe, mas a gripe deve estar em nós e não no tempo. Se faz calor dizemos que o sol está de matar, mas bem que gostamos dele nas manhãs friorentas de inverno.
Se a noite é escura dizemos que está tenebrosa. Se é tempo de lua cheia ficamos escutando uivar de lobos e dizemos que é noite de lobisomem.
Se é hora de dormir queremos chuva, mas se é dia de futebol pedimos sol. Parece que estamos em desacordo com esses nossos companheiros milenares, quando já era tempo de havermos aprendido a conviver em harmonia com eles. Como se diz por aí, temos que aceitá-los do jeito que eles são...
Se chove, melhor é pegarmos um guarda-chuva; se faz sol, é tirar a gravata e o paletó. O calor não deve estar no sol mas na fatiota apertada.
Agora vivemos as vésperas do Dia das Mães. E mães, temos que reverenciar.
Mas não nos esqueçamos da mãe maior, que é a nossa Mãe-Terra. Não temos sido muito carinhosos com ela, antes a agredimos muito. Porque é a Mãe-Terra que sustêm nossa vida física. Ela tem sido muito generosa conosco e nos devolve juros de cem grãos em troca de apenas um que depositamos nela. Ela cria e recria suas defesas mas nós vamos lá e a deixamos desnuda, ao desabrigo. Depois ainda lhe colocamos o rótulo de terra árida, estorricada pelo sol. Por acréscimo culpamos o sol.
Agora mesmo achamos um grande culpado por toda a ventania que agita o planeta, que é esse tal de el ni¤o arteiro. El hombre apronta e bota a culpa no ni¤o.
De seu ventre a Mãe-Terra fez brotar a gramínea que alimentou a vaca que nos deu o leite; de suas entranhas fez germinar a planta que nos deu o grão que nos deu a farinha que nos deu o pão.
Suas águas moveram a usina que gerou energia e nos deu conforto. Com a rocha que a Mãe-Terra chocou durante muitos milênios fincamos os pilares e com o pó de sua crosta edificamos as paredes de nossas moradias.
O atrito de suas pedras produziu o fogo e com ele moldamos o ferro e fabricamos nossas máquinas. Ateando fogo ao sangue negro que extraimos de suas veias fizemos girar as rodas e as hélices e as turbinas, e nesse impulso o homem deu um salto para além da estratosfera.
A Mãe-Terra nos recebeu um dia e permitiu que aqui nos reproduzíssemos, que fôssemos embora e retornassemos a ela quantas vezes quisemos. Estamos aqui há alguns milhares de milênios e a Mãe-Terra nunca deixou de ser abundante. Suas soluções não se esgotam nunca, porque as cria e recria e as transforma e as sintetiza. Quando lhe exaurimos quase toda a lenha que alimentava o fogo ela verteu seu sangue para que não se apagasse a chama, e ao aceno de que ele também possa extinguir-se nos estendeu a pedra de urânio. E este não foi ainda seu derradeiro gesto.
Mas não podemos abusar de tanta generosidade.
Há água abundante em seus mananciais, mas nós os temos poluído, como para fazer-lhe desaforo; há água suficiente em suas reservas subterrâneas mas fingimos não saber e deixamos que se estorrique o solo, até que não dê mais frutos e então morremos à míngua. E aí nos debruçamos sobre esse infortunio, damos-lhe o nome poético de agreste e até o cultuamos em comoventes versos e cantigas. Sem deixar de culpar o sol e a terra, clamando por água que caia do céu quando ela já caiu toda e adormece aguardando que cavemos o poço.
Para receber o homem a Mãe-Terra encheu seus baús com todos os tesouros, do ferro ao ouro; da pedra bruta ao diamante, para servir ao uso do homem e deleite dos amantes. Do sal à pimenta até à planta fibrosa para a vestimenta.
Mãe-Terra é azul, nos revelou o astronauta, e nós que estamos aqui há tanto tempo nem havíamos notado. E neste tudo-azul há ainda os que insistem que a Terra é cinzenta...
A Mãe-Terra nos tem dado todas as flores mas pouco nos lembramos de retribuir essa gratidão, de abraçar essa Terra-Mãe e assumi-la. Se não o fazemos ela geme e chora, sua pele se enruga e se enfeia. E hora pois de dar-lhe um banho e passar-lhe um rouge e uma água de cheiro. Se ela já é tão generosa, imagine-se com um afago!
A Terra-Mãe é exatamente este pedacinho que cada um ocupa e diáriamente pisa, e não a que está além do muro do vizinho. Somos responsáveis pelo nosso pedaço. Esta Terra-Mãe é algo sagrado. Se exaurimos a Terra exaurimos a nós mesmos; se ferimos a Terra ferimos a nós próprios.
Se agredimos a Terra-Mãe agredimos a Deus, porque foi Ele que a criou.
Walmor Maccarini é jornalista em Londrina





