Escrever é coisa séria. Devo a minha ‘‘naturalidade’’ (a forma como chamam, nos formulários oficiais, o Estado natal da gente) à palavra escrita. Ela está na transcrição da minha certidão de nascimento, feita em 1941, em letras do mais puro estilo gótico, pelo escrivão do Cartório França Junior, da Quarta Circunscrição do Registro Civil das Pessoas Naturais do Distrito Federal, que era o Rio de Janeiro, naquela época.
A certidão reza (acreditem, documentos antigos assim rezavam): ‘‘José Roberto, sexo masculino, de cor branca, nasceu às sete horas e quarenta minutos de doze de junho de 1941 na casa número 49 da Rua Santa Cristina, Bairro de Santa Teresa. Foi declarante o próprio pae e testemunhas a mãe e o Sr. Auricélio Penteado’’, nosso primo, que – para quem não sabe – foi uma pessoa importante na história das pesquisas no Brasil, tendo sido o fundador do Ibope. Por esse documento escrito, sou carioca – da gema.
Só que nasci em São Paulo. No mesmo dia e hora da certidão, mas na Maternidade de São Paulo, à Rua Frei Caneca, no Jardim Paulista.
O que aconteceu? Meu pai estava em entendimentos para um novo – e ótimo – emprego, no Rio de Janeiro, na Standard Propaganda, e recebeu a notícia de que teria de apresentar-se ao trabalho imediatamente. Pôs a família no trem e mandou-se para a capital federal. Só depois de instalado – e trabalhando – deu-se conta de que o filho não tinha sido registrado...
O resto é história. Minha história, é claro, mas que – para mim – atesta a tremenda importância da palavra escrita. Nos meus documentos, sou carioca. Nunca cheguei a ‘‘sentir-me’’ paulista e não me lembro de qualquer ocasião em que, para mim, a versão escrita tenha prevalecido sobre o fato biológico, com a única exceção de quando fiz meu mapa astral, para o qual – informou a astróloga – só valia o local geográfico de nascimento...
Esse poder quase mágico da palavra escrita talvez tenha sido o que levou outro escritor, E. L. Doctorow, a afirmar que escrever não passava de uma forma socialmente aceita de esquizofrenia...
Ler e escrever são atividades relativamente recentes na história da humanidade. Estima-se que a escrita tenha sido inventada há 50 séculos – uma bagatela para uma espécie que reside no Planeta há cerca de 1 milhão de anos. Mas não faz mais de cinco – a partir do momento em que a industrialização do livro foi tornada possível pela invenção da impressão em tipos móveis – que uma parcela expressiva da população ganhou acesso à comunicação por via escrita em regime de mão dupla.
É coisa sabida que, durante a Idade Média – e mesmo depois – ler e escrever era reservado aos religiosos, como único segmento pensante da sociedade. Tanto os senhores, nobres, como os súditos miseráveis não podiam ou não precisavam conhecer as técnicas de grafar pensamentos. Nem tinham lá muito o que registrar.
Como os primeiros sistemas ideográficos – criados principalmente para registrar fatos econômicos e contábeis – eram extraordinariamente complexos, não é para surpreender ninguém que seus poucos conhecedores pertencessem às classes dos sacerdotes, que detinham o monopólio social da mágica. Aliás – num cenário bem mais recente e familiar – a trama principal do filme Central do Brasil lida com esses valores, pois a personagem vivida por Fernanda Montenegro, que escreve para os analfabetos, é detentora de uma forma de poder.
E nós, militantes do Quarto Poder – a Imprensa, continuamos vivendo nossas contradições diárias, ao lidar com a imensa credibilidade de que ainda dispõe a palavra escrita (muito mais do que as imagens fugazes da TV) e a nossa fragilidade, quase impotência, de influenciar, de fato, os rumos da História – em especial se eles não coincidem com os objetivos dos reais detentores do poder.
Vista sob um foco tecno-utilitário, a escrita deve ser considerada como forma bastante elementar de comunicação. Mas, como a maior rede de comunicações entre pessoas construída até hoje, a Internet, demonstra, ainda não se encontrou nada melhor para substituí-la. Como, aliás – por coincidência ou não – também é o caso da democracia, como regime de governo.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é jornalista, publicitário, professor e dirigente de instituição superior no Rio de Janeiro

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