Desde quando os meios de comunicação de massa começaram a falar sobre automedicação? Dez anos atrás? Quinze? Ora, mas esse procedimento popular de fazer ‘‘consultas médicas’’ com o balconista da farmácia é muito mais antigo do que isso. Atire a primeira pedra aquele que, sentindo sintomas de alguma doença, não ficou dividido entre: 1) Entrar na fila do pernoite, da madrugada, para esperar a ficha do SUS; 2) Pagar os olhos da cara numa consulta particular; 3) Ver se o farmacêutico - ou seu auxiliar, que também usa avental branco - não pode quebrar o galho.
É óbvio que o ‘‘atendimento’’ mais rápido é o do balconista da farmácia. Você descreve uma ou duas sensações físicas e ele é capaz de, imediatamente, indicar um ‘‘remédio excelente’’ (que por ir de um ácido acetil salicílico até um poderoso antibiótico de amplo espectro). E a brasileirada, de um modo geral, costuma não pensar duas vezes antes de cometer mais essa brasileirice de seguir esse tipo de (des)orientação - pouco importando se o consumidor-doente sofre, ou não, de alergia severa a medicamento, podendo, inclusive, morrer com a ingestão de um simples comprimidinho para dor de cabeça.
Essa mentalidade condescendente com tais comportamentos ‘‘de risco’’ é a mesma que admite, por exemplo, propaganda de remédio na mídia. Há pelo menos vinte anos, soube que os europeus achavam engraçadíssimo o Brasil ter propaganda de analgésico, antitérmico, antiácidos, xaropes expectorantes etc., na televisão.
Ora, porque esses medicamentos, apesar das cores, aromas e sabores, não são doces nem sorvetes. Todos eles contêm elementos químicos que só devem ser ingeridos sob orientação médica. No entanto, o processo de estímulo ao consumo sempre correu solto, a ponto de os supermercados terem tentado, recentemente, levar farmácias para suas prateleiras (como não conseguiram, as farmácias levaram os supermercados para as prateleiras delas). Não ria. Todos vimos, nos telejornais, como o comércio de medicamentos funciona nas farmácias do chamado Primeiro Mundo.
Além dessa facilidade, desse estímulo, ao consumo exagerado de remédios, as farmácias ainda podiam (ainda podem) contar com outra impaciência dos (im)pacientes-clientes: eles também não gostam de esperar o preenchimento da nota fiscal - o que pode transformar os estabelecimentos de menor porte, não computadorizados em verdadeiras minas de ouro de sonegação de ICMS.
Pois nossa mentalidade nos arranjou outra surpresa: os medicamentos falsificados. Falsificam rótulos, data de fabricação, data de vencimento, o conteúdo das drágeas, comprimidos, ampolas, frascos, vidros. E essa situação, existente sabe-se lá desde quando, só veio à tona porque pessoas começaram a morrer e a imprensa se interessou em investigar o fato e denunciar.
Acabamos descobrindo que o crime contra a saúde do povo se organiza na mesma proporção em que a administração pública se desorganizava. O caso dos 30 funcionários da Secretaria Nacional de Vigilância Sanitária, que também trabalhavam como responsáveis técnicos nas farmácias que deviam fiscalizar foi o topo, o cume, o pico dessa monumental cordilheira de desrespeito à dignidade da vida humana. Como não desconfiar do que poderia estar acontecendo nas esferas estaduais e municipais desta área?
O poder Legislativo criou, há tempos, uma lei que determina às farmácias a manutenção de um farmacêutico, com curso universitário, como responsável. Haverá, hoje em dia, pelo menos um farmacêutico para cada farmácia brasileira (ou continua aquela história de um farmacêutico se manifestar, pró-forma, em várias farmácias ao mesmo tempo)?
Lamentável mentalidade coletiva. Também não se pode tocar no crime dos medicamentos falsos sem falar de crimes hospitalares - que ocorrem quando o hospital atende o cidadão assistido pelo sistema público de saúde, cobrando deste o irrisório, e daquele a fortuna da pobreza.
Claro, a máfia da anti-saúde é uma pandemia sistêmica. Daí é legítimo imaginar que o País demorou tanto para perceber esse cancro social não porque essa máfia conta com inimigos junto às autoridades constituídas. Quanto inquéritos administrativos, decorrentes de denúncias de atos criminosos cometidos contra a saúde pública, estão se arrastando, ou parando, nas gavetas da burocracia?
Infelizmente, nossa perplexidade se refere apenas aos efeitos da doença principal, mais grave: a síndrome da falta de educação, que provoca vertigens antiéticas e diarréias de incerteza.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado do Paraná

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